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Desamores
 


Faltou combinar com os russos

Nunca curti os mitos que envolvem a figura do Garrincha. Por mais que “os tempos fossem outros”, para mim não faz sentido um atleta excepcional ser rotulado como uma figura tão limitada e descomprometida.

Uma das clássicas histórias/mitos sobre ele é a de que, na Copa de 58, o técnico brasileiro ensaiava jogadas para o jogo contra a União Soviética. E depois de participar com má vontade do treinamento ele teria questionado: “Mas alguém já combinou com os russos?”.

Em vários encontros e desencontros da minha vida, me pergunto a mesma coisa. Será que não faltou eu combinar com “os russos”?

Bom, para mim o Garrincha era genial, até em suas declarações. E nem me importo se ele falou ou não isso algum dia.



Escrito por edusenise às 00h24
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Vergonha

- Ei, Edu!

- Oi cara, o que você ta fazendo aí?

- Acabei de trocar o nome de um dos caras aqui do trabalho! Agora to dividindo a minha vergonha com você! Acho que ela deve ir embora daqui a pouco!

- Hahahahaha! Adorei, fantástico!

- É verdade, daqui um tempinho eu já posso continuar a fazer o que estava fazendo...

- Certo, certo. Fale sobre isso no seu blog!

- Sobre o quê?

- Ora, sobre compartilhar a vergonha dessa forma!

- Ah, sim!Pode ser, porque eu acho mesmo que se eu divido a vergonha, ela fica com a metade do peso. E se você se expõe, a vergonha parece menos vergonhosa. Fora que deixo de correr o risco de alguém dizer "que isso, não é nada demais".

- Sim, acho que as vergonhas que a gente guarda acabam crescendo de tamanho. E cada um sabe o tamanho da sua vergonha, os seus motivos...

- Certo, certo. Bem, já está passando.

- Ufa, eu tava tenso por você! (ironia)

- Acho que posso sair de debaixo da mesa!



Escrito por edusenise às 19h31
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Mais importante que a agressividade

Até eu subir no ringue foram quatro meses de treino. Se eu pensar que demorei quase metade desse tempo só pra aprender a pular corda, acho que até foi rápido. Desde o início eu só treinava o físico e a parte técnica, socando os sacos. E se você acha que isso é lutar, pense no seguinte: dar milhares de chutes numa bola te faz jogar bem futebol? Pois é.

Meses fazendo jab-direto; jab-direto, sai, direto; jab-direto, cruza, cruza; jab-direto, cruza, direto; jab-direto, cruza, cruza, direto; jab-direto, esquiva, direto; jab-direto, esquiva, esquiva, jab-direto; jab-direto, esquiva, esquiva, pêndulo, direto...

Nas primeiras vezes que pisei no tablado eu não sabia nem andar como um pugilista. Trocava as pernas de um jeito que nem precisaria de um soco do adversário pra me derrubar. Aos poucos, fui aprendendo; ainda não sou nenhum dançarino, mas também não fico dando mole.

A gente começa fazendo espelho. Nem se toca, só vai mostrando pro outro a sua postura, a maneira como se movimenta, os golpes que conhece e, mais que isso, a sua agressividade.

Depois fui liberado pra fazer luvas. Como diz o técnico “só toque, sem machucar”. Tsc, imagina se uns moleques de 19 a 22 anos vão entrar nessa. Eles querem bater, tão lá pra lutar. Se tu vai tocar neles sem força é problema seu, eles querem ver se sabem derrubar alguém.

E no começo eu apanhei bastante. Até ficar esperto com a esquiva e a minha guarda. O melhor dessa fase foi ver que muitas vezes os garotos eram melhores do que eu, mas se encolhiam, queriam bater mas tinham muito medo de apanhar, faltava a tal agressividade. Com esses que eu comecei a repetir pra mim mesmo, mentalmente, uma frase que a gente escuta o tempo todo no boxe “Você primeiro”. Não ia deixar esses caras me socarem antes. A iniciativa tinha que ser minha. E quando eu assumia isso, era raro apanhar.

Aos poucos fui ficando bom. Já sou um cara procurado pra treinar junto. É, tem essa, no boxe você evolui quando treina com gente boa, ficar ensinando quem não sabe nada é coisa pro professor e ficar batendo em galinha morta não te traz nenhum benefício. Até sei que esse pensamento é arrogante. Agora pense se calçar luvas e querer bater na cara de outro é esporte pra gentleman? Fala sério com essa coisa de “nobre arte”.

E hoje descobri algo pior que a falta de agressividade no treino. Justamente quando eu achava que eu já era bom o suficiente. Fazendo luvas com um moleque mais novo e mais leve, muito técnico, eu entrava sempre primeiro. Nada dele colar em mim. Assim ele apanhou até encostar nas cordas. Nessa hora eu o castiguei com gosto. É um dos mais marrentos da academia, bati com vontade. O moleque foi se encolhendo e quando parecia que ia pedir arrego soltou um direto. Do nada, desesperado. Acertou em cheio na minha boca. Senti ela ficar dormente na hora. Dei um passo pra trás e pra sorte de ambos o round acabou.

Eu fiquei com a boca do Mick Jagger por uma noite, ele nunca mais apareceu pra treinar. Mas agora entendi que mais perigoso que a falta de agressividade é não guardar rápido a sua direita. Quando entra um contragolpe você pode ver o teto do ginásio num segundo.



Escrito por edusenise às 21h53
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Bem resolvida

Ela era do tipo que sai contigo sem querer fazer de você o homem da vida dela, sem querer apresentar pra mãe e sem querer te dar o primeiro abraço no ano novo. Para alguém como eu, que quase sempre interessado apenas em sexo casual, aquela postura era perfeita. Segura, parecia decidir tudo o tempo todo; até mesmo com quem ia compartilhar a cama.

Já eu sempre me achei um engodo. Preguiçoso e manipulador, minha melhor característica era ser observador. Sabia exatamente o que ela gostava e tentava atrair a atenção dela com isso. 

Cansei de vê-la intimidando homens por ser assim, confiante e bem sucedida. Outros, mais corajosos, se impressionavam e acabavam se interessando por ela. Tinham seus momentos e só. Nunca passava disso. Era incrível notar a sua disciplina. Bancava a durona 100% do tempo, nunca aparentava carência. O que, claro, eu sabia ser só uma fachada.

Quando começamos a sair com mais freqüência isso ficou evidente. Nas primeiras cinco, seis vezes que nos encontramos, nada acontecia. Ficava apenas aquele clima de constrangimento no ar. Um clima que eu acreditava gerar por tentar me fazer de perfeita companhia o tempo todo. Por vezes, o silêncio acanhado nos oprimia, mas eu tentava ser forte e o deixava perdurar até que ela cedia. Nessas horas, ela falava quase compulsivamente até que todo o clima desaparecesse.

O que eu mais admirava nela era a maneira como caminhava. Nada de queixinho empinado e quadris rebolantes, nada de poses e bancas. Ela apenas caminhava, andava como quem marcha, não de modo masculinizado; segura, firme como alguém que nunca se emociona, como quem nunca vai se debulhar em lágrimas para tentar te comover. Ela vendia uma imagem de que sabia lidar com as diferenças, de que era capaz de se manter íntegra e fiel a si mesma, sem jamais se desfigurar para agradar o outro.

Eu fingia que acreditava em tudo isso. Por vezes até me fazia de surpreso e corroborava com a personagem dela. Mesmo me sentindo um canastrão, me esforçava para agradá-la. Não porque fosse um romântico apaixonado, era apenas um inseguro doentio que queria manter aquela relação o máximo possível. Até porque aquela era uma forma brilhante de valorizar o meu passe.

Para ela, ser bem resolvida não era sair com todo mundo pra se fazer de moderninha. Afinal, para ser bem resolvida é preciso ser capaz de se entregar. Quem sabe até mesmo ter coragem de enfrentar os desafios que uma vida a dois impõem e de cultivar uma caprichosa intimidade.

E era justamente isso que fazia ela ir cedendo ao convívio e demonstrando suas fraquezas, se permitindo dividir angústias e até mesmo a chorar no meu colo. Aquele era um sentimento incrível, que se sedimentava com o tempo. Mulheres bem resolvidas tratam das suas intimidades sabendo que ela não brota do acaso. Ela é construída, tijolinho por tijolinho.

Mas é claro que ser bem resolvida não é como ser destra, flamenguista, ou como gostar de praia. É uma situação em processo. Todo mundo cai de vez em quando, até mesmo ela. A diferença é que ela não ficava sentada, se recompunha rapidamente e voltava a caminhar, com ainda mais elegância. E foi isso que ela fez quando soube que eu estava saindo com outra menina.



Escrito por edusenise às 09h01
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Oito números

- Por que você não tem atualizado o blog?

- Ah, ando meio sem tempo, acabei deixando ele de lado. Mas legal saber que você o lê. Já tentou ler os posts antigos? Os textos que eu gosto mais são os primeiros.

- Visito ele sempre. Mas não costumo ler os antigos, fico mais na expectativa de ver algo novo. Você não atualiza nada há uns três meses. Quando entro, fico na esperança de ter mais textos sobre mim. E como você não tem escrito nada...

- Ué, não conhecia esse seu lado tão vaidoso! Mas pra dizer a verdade, nunca escrevi especificamente sobre você ou sobre qualquer pessoa. São apenas histórias, ficções. Algumas baseadas em fatos reais, claro. Mas nenhuma das personagens sou eu ou qualquer outra pessoa que conheço.

- Tsc, fala sério!

- Tô falando. Por que você acha que eu que sou super cioso da minha intimidade teria um diário online público?

- Ah, não importa. Já te disse que não acredito! Mas vem cá, já que estamos numa DR, me conta, por que você nunca me liga?

- Han?! DR? Nunca te ligo?!

- DR, discutindo a relação...

(- Relação?!)

- Nunca nem percebi que eu não te ligo. Será que isso é mesmo verdade? A gente tá sempre se falando. Como será que acontece? A gente só se esbarra por aí?

- Dããã...

- Falando sério, nem tinha notado que eu não te ligava. De qualquer forma, você pode me ligar também. Sem problemas.

- Ah, mas você sabe que não é assim. Comigo é diferente...

- Por quê? São oito números pra você também!

- Seu grosso! Não quero mais falar contigo, tchau!

- Ih cacete, agora descobri porque eu nunca ligo.



Escrito por edusenise às 12h01
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O atleta

Eu era o pior do time, mas era também o mais esforçado. Primeiro a chegar aos treinos, último a sair. Não bebia, não fumava e comia de maneira regrada e saudável. Jogava para a equipe e tentava me mostrar importante para o grupo sempre que tinha a chance de treinar com os reservas; já que entre os titulares eu nunca consegui.

Eu era um dos mais baixos e mais franzinos. Mas não era o pior por causa disso. Simplesmente tinha menos talento que os outros. A força de vontade e dedicação compensavam um pouco da minha falta de habilidade, mas não o suficiente.

Eu era o mais atuante dos atletas, me envolvia nas questões políticas do clube, ajudava na preparação da equipe, ajudava nas preleções e passava informações a respeito de treinamentos e de adversários para a comissão técnica. Se eu jogasse, poucos minutos que fossem, certamente seria um dos capitães do time.

Eu era querido pelos colegas da equipe e pelos funcionários mais próximos ao time. Jamais tive fã clube, ou recebi cartas de fãs. Mas eu nunca esmoreci. Continuei me empenhando, tentando mostrar serviço e me dedicando.

Eu era um atleta quase sem esperanças quando finalmente tive a minha chance. Joguei dois minutos, na realidade, um minuto e cinqüenta e nove segundos. No último jogo da temporada, uma partida perdida em que o técnico resolveu retirar os titulares. Nesse tempo, consegui pegar na bola três vezes. Foram dois passes errados e uma falta de ataque.

Eu era o homem que faria daquela partida, daqueles poucos lances, o meu primeiro e último jogo. Encerrei minha carreira naquela noite, exausto, sobretudo emocionalmente, e mesmo com a minha atuação pífia e a derrota, saí sob os aplausos dos poucos torcedores que ainda estavam lá. Eles reconheciam o meu esforço.

Naquele momento, ao encerrar minha carreira, eu era o atleta mais feliz do mundo.



Escrito por edusenise às 22h19
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A melhor maneira de lidar com uma tentação é ceder?
Eu penso que sim.
Mesmo sabendo que essa postura que me apazigua o corpo, me atormenta a alma.
Hoje eu diria que posso resistir a tudo, menos à tentação.

O barulho do elevador

Moro num prédio muito antigo. É um daqueles edifícios sem playground ou garagem. Aqui há três blocos de dez andares. Meu apartamento é de fundos, na metade do caminho entre o térreo e a cobertura. Um quarto e sala, mais do que suficiente para alguém sozinho e de poucas posses como eu.

Vivo nesse lugar há dois anos, mas não conheço muita gente. Os vizinhos não costumam dar as saudações de praxe, parecem sempre mal humorados. Em sua maioria são tão idosos quanto o elevador do prédio; um ascensor pequeno, com capacidade para cinco pessoas. Ele tem um espelho na altura do rosto de uma mulher e uma estrondosa porta pantográfica.

Durante as madrugadas o som dele parando no quinto andar me é perfeitamente audível, basta que eu esteja na cama, acordado. Há sete meses esse barulho é a maior tortura da minha vida. Não existe uma onomatopéia perfeita o suficiente para transformar o ruído dessa máquina em palavras. De toda forma, posso tentar descrever a minha sensação ao escutá-lo.

Pelo que percebo, a frenagem deve começar quando ele ainda está passando pelo terceiro piso. Isso provoca um ruído contínuo que dura três ou quatro segundos, o suficiente para me deixar em alerta. Depois um estanque e um estalo forte, acho que é quando as correntes param de alçá-lo e ele interrompe a sua trajetória. Nesse momento odeio a mim mesmo por ainda sentir aquela quentura na boca do estômago, típica de um tormento mal resolvido. O suplício chega ao ápice quando escuto o pior dos barulhos, a abertura da porta. Ele é feita de oito barras articuladas e enferrujadas, presa em rodinhas de rolimã que correm sobre um trilho de aço mal conservado. Ouvir o seu chiado é o suficiente para me fazer passar o resto da noite em claro.

Sempre que isso acontece, irracionalmente anseio por escutar os passos de tamanco pelo corredor e ver, por baixo da porta, a luz acendendo. É provável que seja uma esperança vã, mas ainda não foi desfeita. Na realidade, meu corpo queria ter mais uma chance de estar com ela. Daria tudo para que a minha campainha soasse numa madrugada de quarta-feira mais uma vez. Não consigo desatar-me das lembranças.

Eram 3h30 da manhã quando ela me ligou. Disse que precisava me falar com urgência, perguntou se podia vir até a minha casa. Estranhei aquilo tudo, mas não titubeei, “pode, claro”. Ela chegaria em vinte minutos, só tive tempo de me vestir e escovar os dentes. Meu coração não cabia em meu peito, a expectativa e a dúvida me consumiam, não imaginava o que poderia ter acontecido, nada justificava a sua vinda. Na época, quando escutei o barulho do elevador, levantei num salto e esperei atrás da porta.

Ela estava maravilhosa, brilho nos lábios, saia branca, blusa decotada com as costas nuas e uma tiara. Fiquei absolutamente nervoso e sem jeito ao vê-la, não sabia muito bem o que falar, ela sempre foi muito melhor nisso do que eu. Perguntei o que tinha acontecido, qual era o motivo de uma visita no meio da madrugada.

- Vim aqui só para te dar um beijo.

Essa frase reiniciou tudo. Intimamente eu ansiava por aquele momento, mas nunca confessaria isso a ela. Nos beijamos longamente até que ela parou e explicou o motivo de seu sumiço, emendando com a explicação de que aquela era a despedida de nosso relacionamento (que nunca chegamos a oficializar). Pediu desculpas e se disse envergonhada. Choramos, nos abraçamos e confessamos que no passado gostávamos um do outro, só ficávamos um com o outro e chegamos a conclusão de que tudo parecia acabar sem chegar ao clímax. Então transamos e choramos novamente.

Julgamos que seria mesmo impossível nos mantermos assim. Era imprescindível que nos libertássemos de nós mesmos. Prometemos que iríamos nos afastar, pois em nossa história não é possível qualquer tipo de final feliz.

Refletindo sobre isso ela chorou, dessa vez sozinha. Mostrou-se envergonhada por ter me feito sofrer. Eu a abracei e tentei trazer algum conforto enquanto pensava em como a acho irresistível, em como seria difícil lidar com a tentação de não mais me aproximar dela. Afirmei que apesar da minha mágoa poderíamos conviver pacificamente e nos tratarmos com carinho e cordialidade. Mas seria apenas isso, ao menos eu estava tentando me convencer. A única conclusão a que chegamos era que jamais poderíamos voltar a ser amantes. Assim, transamos novamente. O fizemos em clima de despedida. Naquela hora, nada poderia ter sido mais prazeroso.

Depois disso não houve mais choro. Ficamos lado a lado por alguns minutos, falamos sobre coisas desimportantes e esperamos alguns minutos pelo raiar da manhã.

Poderíamos ter passado todo o dia na cama, revivendo as despedidas e alimentando minha autoflagelação. No entanto, quem sabe por sorte ou por azar, ela precisava trabalhar. Quando ela saiu, abateu-me uma sensação de vazio quase desértico, um pesar amargo e o inquietante pensamento sobre como faltou pouco para que tudo tivesse dado certo. É muito doloroso pensar que preciso fugir dela. Ao mesmo tempo, estou certo de que é necessário que nos afastemos.

Para o bem do meu coração, espero que ela mantenha a promessa e mantenha-se longe. Enquanto isso, vou revendo os meus conceitos sobre as tentações e padecendo com o barulho do elevador.



Escrito por edusenise às 10h29
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Minha mãe candidata

Minha mãe é candidata a cargos públicos desde que eu tinha dois anos. Cresci vendo-a cumprimentar desconhecidos como se fossem seus amigos, beijar crianças com tanto amor que pareciam meus irmãos e falar a respeito de assuntos que ela não conhecia com a mesma eloqüência de quando me dava sermões por minhas notas baixas em Matemática.

Sempre admirei sua força, mas seus compromissos nos afastavam, quase nunca tínhamos tempo de viver uma relação normal, como eu via em outras casas. Toda semana havia uma viagem para Brasília, uma reunião do partido, uma assembléia do comitê.

Com o tempo, me acostumei a receber notícias dela pelos jornais. E também a perceber que nem tudo que falavam a respeito dela era verdade. Conforme ela ia prosperando como política, ia naufragando como mãe. Jamais foi as reuniões de pais na escola, não estava disponível quando eu queria conversar sobre o meu primeiro namorado e nem quando eu engravidei.

Certamente foi nessa época que eu mais precisei dela. Infelizmente isso aconteceu em ano de eleição. Além de todos os compromissos tradicionais, ela também tinha os comícios, carreatas e debates. Era impossível conversar com ela sobre algo que não incluísse as palavras votos, pesquisas e algum palavrão.

E nem quero parecer reclamona demais, até acredito que ela tentava me dar alguma atenção, participar, ou ao menos se inteirar, da minha vida.  Mas aquela rotina a sugava, absorvia todos os seus pensamentos. Para ela foi impossível dividir o seu tempo comigo no início de minha gravidez. Ainda era um namoro razoavelmente recente, mas eu gostava dele, todos sabiam disso, inclusive ele.

O que ninguém sabia – a não ser eu – era que o filho era de outro. Oriundo de um relacionamento que eu mantinha escondida, com um antigo empregado da casa. Esta era a típica notícia que poderia arranhar a imagem de minha mãe em plena campanha. Assim, se eu não a divulgaria normalmente, com esse estímulo então, tinha certeza que manteria meu segredo.

Lidei bem com a minha mentira na maior parte do tempo. Tinha apenas pequenas crises de consciência quando me lembrava de uma frase feita que o meu pai gostava de repetir “não controlamos as nossas emoções, mas controlamos as nossas ações”. Bem, eu tinha sido egoísta e não me arrependia muito.

Com o tempo, a gravidez prosseguiu e a campanha terminou. Minha mãe não foi eleita. Perdeu em segundo turno, por uma diferença mínima. Quando o bebê estava para nascer procurei por ela que, finalmente, podia me dar mais atenção. Já não estava suportando mais manter o meu segredo sem dividi-lo com alguém e eu só confiava nela para esta tarefa.

Contei tudo que aconteceu. Que o meu namorado e futuro marido não era o pai da criança, como eu o enganava há meses e agora me envergonhava pelo que tinha feito. Em um determinado momento, cheguei a comentar que não sabia se agüentaria a pressão de não contar a verdade para ele.

Foi quando ela, placidamente, me abraçou, afagou minha cabeça e com uma voz suave e cheia de ternura me disse: “Um amor baseado em mentiras não é um bom amor, só por que não é fundamentado em um sentimento verdadeiro? Querida, você ia ficar impressionada com a quantidade de mentiras que uma pessoa pode suportar”.



Escrito por edusenise às 22h33
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A perseguida da Florinda

Mudar de cidade o tempo todo tem as suas vantagens. Acho que a maior delas é poder tirar férias da minha vida, dos meus conceitos, costumes e hábitos quando quero. Afinal, sempre vou para lugares onde ninguém me conhece. Nesses novos sítios posso ser qualquer uma. É como tirar férias de mim mesma. Posso me apresentar como uma personagem diferente em cada lugar. Posso querer que me aceitem como fumante, gay, tímida, filha única, adotada, gostar de esportes, não gostar de gatos...

Acostumei-me a viver assim, sem uma identidade fixa, como uma refugiada. E quando a aflição - é, acho que esta palavra descreve melhor o que sinto - aperta, saio de onde estou. Por vezes, vou até um ponto de ônibus e faço sinal para o primeiro que passar (o destino é um mero detalhe mesmo), ando pela cidade sem saber como voltar. Quando isso não é suficiente, mudo de cidade novamente.

Até admito que haja dias em que estou mais sensível, normalmente eles acontecem quando já estou prestes a mudar de lugar. Afinal, por mais que eu tente, é difícil estabelecer uma relação onde não se cria qualquer vínculo com a cidade onde se mora. E mais do que isso, que não te leva à comparação com a cidade de onde você veio. Agora, por exemplo, creio que seja um desses momentos. Afinal, vim para cá pensando em passar dois anos que já estão para se findar.

E pela primeira vez em minha vida, tenho vontade de voltar para uma cidade. Um lugar onde morei por tanto tempo quanto em qualquer outro, mas que sempre me acompanhou em pensamento. O mais fantástico é que quero voltar para lá sem que guarde qualquer lembrança em especial deste local. Sua infra-estrutura, clima ou tipo de vida nada têm de especial. Para dizer a verdade, a cidade é até interiorana demais para o meu gosto. Mas foi lá onde vivi a minha história mais fantástica. Com uma pessoa em que passei os melhores momentos dos meus últimos anos. Onde me senti mais indefesa quanto às imprevisibilidades da vida.

Tudo começou quando me dei conta que tinha perdido o meu guia de bolso – provavelmente o esqueci no motel de beira de estrada onde passei a noite – quando estava indo para a tal cidade. Parei em um pequeno comércio num vilarejo próximo da estrada, fui até uma padaria, pedi um café apenas como pretexto para solicitar uma informação a respeito de que caminho pegar. Para minha frustração, o balconista não era capaz de me dar uma mínima indicação, era um adolescente que jamais tinha saído de lá. Sorte que justo quando ele se justificava e pedia desculpas por não poder me ajudar, surgiu atrás de mim um homem que certamente não pertencia àquele lugar. Disse que havia me escutado e que podia me indicar o caminho.

Em uma conversa muito rápida fiquei absolutamente impressionada com ele. Seu tipo não era de uma beleza padronizada. Tinha um rosto e um corpo harmônicos, quase que polidos, sem exageros. Um homem que não atrairia as atenções das mulheres quando entrasse no recinto, mas que mereceria olhares ao longo da noite, por seu porte, sua energia, seu jeito, sei lá por que. Ele me disse ter nascido na cidade que eu procurava e que estava indo para outra direção, viajando a negócios, indo para a capital. De toda forma, foi muito gentil e me indicou que caminho seguir com uma riqueza de detalhes que deixaria até mesmo uma cega convicta de que poderia achar o lugar.

Saímos juntos da padaria, nos despedimos com um aperto de mão e entramos em nossos carros que – por acaso – estavam parados lado a lado. Saí à direita e ele a esquerda e seguimos nossos caminhos. Quilômetros depois, me peguei pensando nele, lamentando por não ter ficado com o seu telefone, pedido um cartão, sob o pretexto de ser uma nova moradora da cidade e que seria legal fazer amigos. Cheguei a dar um soco no volante do carro me lamentando por ter sido tão ingênua. Nessa hora, distraída pelas minhas lamúrias, mal notei quando um carro passou por mim naquela estrada tão deserta. No pouco tempo que tive, olhei para o lado e me achei louca. Acreditei que era o meu sonhado “amigo” ao volante. Mas o carro era outro, a direção que ele tomara era outra e a roupa era diferente. Nessa hora achei até graça dessa pequena alucinação.

Só que mais à frente essa graça se transformou em uma grande interrogação. Eu andava bem rápido por uma grande reta quando notei o carro que me ultrapassara parado no acostamento e o seu motorista fora dele. Novamente o vi de relance, parecia impossível, mas era o homem que eu havia conhecido! Agora não tinha mais dúvidas. Certamente ele havia trocado de carro e de roupa e estava me perseguindo. Confesso a vocês que num primeiro momento não gostei nada desta sensação de ter alguém em meu encalço, mas no segundo seguinte, fiquei vaidosa com a tentativa dele.

Assim, mesmo sabendo que faltava pouco para chegar até a cidade, diminui o ritmo propositadamente. Queria dar tempo para ele me alcançar. A noite já tinha chegado e quando eu passava por um trigal notei os faróis de um carro atrás de mim. Era ele. Fui para a pista da direita, emparelhei meu carro com o dele e abri a janela. Sorri e acenei. Ele, de um jeito sínico que me deixou ainda mais interessada, sorriu com ar de surpresa. E sem que falássemos uma palavra, ele fez sinal para uma pequena entrada na plantação de trigo por onde eu o acompanhei.

Descer do carro e ver aquele homem praticamente desconhecido, sob a luz da noite, naquele lugar, me esperando, foi uma das coisas mais excitantes que já vivi. Andei em sua direção, parei a sua frente e disse “oi”. Em resposta ele me agarrou para um dos melhores beijos da minha vida. Nas horas seguintes, com ele, num lugar em que jamais imaginaria, tive uma noite fantástica. Saímos de lá pouco antes de o sol nascer, evitando que fossemos vistos. Seguimos para a cidade e ele me mostrou onde morava antes de me indicar uma pensão.

Dias depois, quando já estava instalada, fui até onde ele morava. Quis fazer uma visita surpresa. Ele foi logo abrindo a porta e me pediu para esperar um instante na sala, pois estava falando ao telefone com o seu irmão gêmeo, que tinha ido passar um tempo na capital.



Escrito por edusenise às 09h47
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Luto

Estou enjoado, não consigo comer nada. Sinto uma enorme dor de cabeça, fraqueza, algo parece estar prezo na minha garganta. Meu humor está pra lá de instável. Meus olhos estão fundos, com uma dor latejante. Sinto a minha pele esponjosa, mas a musculatura está travada, mal consigo me mexer. Passo as mãos pelos meus cabelos não cortados e sinto a oleosidade. Estou suando, mas as minhas mãos estão geladas.

Vou para o banheiro, cuspo na pia, gosto amargo. Abaixo a cabeça, tonto, muito tonto, olho para a privada. Apoio a mão no box e me sento em frente a ela. Tenho ânsia de vômito. O estômago embrulhado anuncia que eu preciso me livrar de algo ruim. Dou a primeira golfada, depois dela sinto-me um pouco melhor. Tento levantar, escovar os dentes ir para a cama. Mas em minutos o enjôo volta. Saio correndo para o banheiro. Agora o jato é forte, doloroso, tira de mim o que tinha me forçado a comer no café da manhã.

O banheiro está imundo, eu me sinto imundo. Tento lavá-lo com minhas poucas forças e entro no banho. Pelo meu cansaço, dormiria sob a água, pensando em me acomodar melhor, me lavo rapidamente e vou para a cama. Agora sinto frio, me visto e pego dois edredons. Deito de barriga para cima e me enrolo como uma múmia. Penso em telefonar para alguém. Mas quem? Acho que tenho que passar por isso sozinho. Ligo a TV, forço-me a ler as legendas sem os óculos, cansando a minha vista espero conseguir dormir. Apago por duas horas.

Desperto com fome. Nada na geladeira. Na dispensa, o último pacote de miojo. Tsc, logo o de frango, detesto o de frango. Como aquela porcaria como um animal, engulo tudo em menos de um minuto. Volto para a cama acreditando estar melhor. Durmo por mais duas ou três horas. Acordo agitado. A cabeça não dói mais. Agora, os pensamentos que me deixam tonto, apertam o meu peito. Sinto sufocar. A madrugada avança enquanto eu me remexo na cama, embolado entre travesseiros e edredons.

E assim fico por dias, talvez uma semana. Sem ver a luz do sol. Sem escovar os dentes. Sem esperança. Foi assim que finalmente descobri que a minha obsessão pela organização era o que ocultava o meu desleixo. Sempre usei cada palavra ao seu tempo não por estilo, mas por incapacidade de fazer links. Sou indisciplinado. Se pareço generoso é para ocultar minha mesquinhez, me faço de prudente; mas sou desconfiado; faço-me de conciliador para não sucumbir as minhas próprias iras.



Escrito por edusenise às 14h06
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Reunião (postura)

Cheguei para a reunião estrategicamente atrasado. Apenas cinco minutos, só o tempo de não ser o primeiro e também não fazer com que os outros esperassem. Como chefe de setor, sabia que não devia fazer isso com os executivos, mas esse foi o único recurso que tive para burlar a opressão que eu sentia ao dividir a sala com eles naquela circunstância. Duas das três pessoas que participariam do encontro já estavam lá. Faltava apenas a diretora geral. Na sala, eu, com meu bloco de anotações e eles, com seus computadores pessoais. Ambos sentados de modo descontraído. Seus rostos não tinham tensão, pelo contrário, pareciam – como de hábito – positivos e confiantes.

Assim que cheguei, eles me cumprimentaram simpaticamente; dez segundos depois me pediram um favor: falar com a copeira, queriam café. Fiz isso sem problemas, até achei bacana a oportunidade de falar com ela, era seu aniversário. Além do mais, eu era o único sem um laptop, o único que parecia não estar trabalhando.

Depois de mais uns minutos, voltaram a brincar comigo, um deles disse que eu tinha sorte por não ter que fazer relatórios como aqueles que eles montavam, naquele momento. Apenas sorri e não respondi nada. Afinal, pensei, trabalho 10, 12 horas por dia, sonhando com a possibilidade de, no futuro, ter que fazer relatórios como os deles, ter horários flexíveis como os deles, ter a confiança e a tranqüilidade que eles têm, ter o contracheque que eles têm.

O pior é que eu não contava em ter que ir nessa reunião. Ainda mais ter que ficar esperando a diretora geral. Sentia-me acanhado, envergonhado por estar mal barbeado e mal vestido. Nada estava indo como eu planejei. Ao menos o ar condicionado estava ligado. Nesse calor seria ainda mais ridículo mostrar como eu transpiro nessas horas.

De repente, um deles levantou e disse "acabei". Em seguida, fechou o notebook, caminhou cinco ou seis metros pela sala e voltou. Era uma figura simpática. Simpático como alguém que quer mostrar que sabe sempre o que faz (o que eu duvido totalmente), o tempo todo ele parecia esbarrar na soberba, sem derrubá-la. Obviamente, ele não tinha muito assunto comigo, mal tínhamos nos visto na empresa, talvez duas ou três vezes, no máximo. Ele parecia até um pouco agitado, impaciente, logo resolveu mexer no projetor que usaria em sua apresentação.

Neste momento fiquei bastante desconfortável, me sentia pressionado a ajudá-lo, mesmo sem entender nada daquela tecnologia, quis me colocar à disposição. Sorte minha que ele parou quando chegou a copeira com um lanche. Ali tive que ter muito autocontrole. Era muito fácil comer sem demonstrar um pingo de educação. Já eram 19h30, eu não tinha almoçado e quando estou nervoso, como compulsivamente. Aquele lanche parecia ótimo e eles davam toda a pinta que mal olhariam para mim. Felizmente, consegui me segurar.  

A diretora geral chegou quase trinta minutos depois. Fui o único a abrir um sorriso, o único a fazer menção de me levantar para cumprimentar, mesmo sem conhecê-la pessoalmente. Os outros permaneceram em seus lugares enquanto ela veio falar com cada um.

Logo em seguida ela iniciou a reunião. Foi interessante notar que quando ela começou a falar, eles, que até então não tinham feito a menor menção a tocar na comida, resolveram se servir. Nossa, como deve ser bom ter essa segurança, tomar café e parar de olhar para a sua diretora no momento que ela começa a falar.

Após as primeiras instruções e informes eu tinha anotado todas as minhas tarefas; eles tinham feito telefonemas e enviado torpedos. Com a apresentação que veio na seqüência, notei que todas as decisões giravam em torno das minhas idéias, dos projetos que apresentei, das oportunidades que criei para a empresa. Não pude disfarçar o meu orgulho nesse instante. Percebi que a minha presença naquela reunião tinha um motivo e comecei a sonhar com a promoção que julgava merecer a três anos.

No fim da noite o resultado pode ser óbvio para aqueles acostumados a ler os textos desse blog. A promoção não veio. Saí de lá apenas com mais trabalhos, um enorme número de operações para fazer (que gerariam os tais relatórios que tanto os preocupam...) e a certeza de que para eles eu era apenas um peão. Mas também saí com o aprendizado que me era necessário, como não me comportar. Se eu queria ser um deles, teria que mudar algumas coisas em meu comportamento, mas jamais seria negligente como eles.

Pedi demissão na semana seguinte e agora sou executivo em outra empresa. Confesso que não fico triste ao saber que pouco tempo depois o meu departamento foi extinto e a empresa caminha para fechar suas portas. É, para aqueles acostumados com sad ends, uma novidade.

Escrito por edusenise às 12h51
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Quando eu era pequeno, tinha um amigo imaginário. Trocava muitas idéias com ele, sobretudo à noite, sozinho no meu quarto. Nunca fui recriminado por isso, até tenho lembranças dos meus pais me estimularem, talvez achassem bonitinho. Ruim é que com o tempo eu fui me acostumando a recorrer a esse amigo.

Depois percebi que eu ia crescendo, mas a idade dele se mantinha. Ele era bem mais velho, mais responsável, mais sensato e inteligente. Dessa forma, meu respeito por ele só aumentava enquanto ele ia se tornando mais participativo, mais presente em minha vida.

Por isso, mesmo sem nunca ter lhe dado um nome, eu o chamava mentalmente quando tinha problemas. É verdade que ele nunca me ajudou colocando a mão na massa, mas sempre me reconfortava, me ouvia, me ajudava a ter uma idéias.

Quase adolescente, descobri que várias outras pessoas também tinham amigos imaginários. Algumas tinham encontros sistemáticos com eles em um ou mais dias na semana. Desses, uns faziam questão de desenvolver densas cerimônias para os seus relacionamentos. Outros tinham contatos mais esporádicos, chamando-os apenas em momentos de crise.

Já adulto, tive minha primeira briga séria com o meu amigo imaginário. Passei por uma crise muito grave e ele não me ajudou. Por mais que eu lhe chamasse, perguntasse, pedisse, implorasse, ele não me acudiu. Por isso eu decidi romper relações com ele. Afinal, de que ele me serviria se não me daria apoio quando mais precisasse?

E assim vivi sem ele muito bem, durante anos. Confesso que até sentia algum prazer em debochar dos que insistiam em acreditar em seus amigos imateriais. Meu escárnio ajudava a expressar meu rancor por jamais ter me esquecido do episódio que me fez abdicar de meu amigo.

Eu fazia troça dos que acreditavam, mas também ia me adaptando a essa nova situação. Tinha que me controlar para não evocá-lo novamente nos maus momentos.  Aos poucos eu tinha que me conscientizar que não havia mais uma relação a cultivar. Na maior parte do tempo isso não era difícil, sou orgulhoso o suficiente para não chamá-lo uma segunda vez e novamente ser ignorado.

Mas aos poucos um vazio foi tomando conta de mim. Sentia-me um pouco deprimido, incomodado pela credulidade que outros ainda tinham. Foi quando pensava a respeito disso que encontrei, por acaso, um conhecido. Ele havia estudado comigo na escola, onde todos conversavam com seus amigos imaginários. E admito que me incomodou muito o fato dele, depois de tantos anos, parecer tão sereno, tranqüilo de suas convicções e da sua relação com aquele ser intangível.

Quando falei para ele que tinha perdido a minha convicção, que não falava mais com meu amigo imaginário, ele respondeu: “Os ateus querem que deixemos de acreditar em Deus e não nos dão nada para acreditarmos em seu lugar”.



Escrito por edusenise às 22h54
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Superstição

 

Acordei atrasado. Pelo movimento da rua, são 6h30. O som dos ônibus começa a se intensificar, mas ainda não há o ruído das freadas, de quando o trânsito está mais cheio, com mais táxis na rua, pessoas indo para o metrô, pais levando filhos para a escola. O pior barulho só começa às oito, quando há também o estrondo das caixas de cerveja sendo descarregadas na distribuidora de bebidas que fica abaixo da minha janela.

 

É janeiro no Rio de Janeiro. Lá fora, 35 graus, e o dia mal começou. Aqui dentro, certamente está mais calor. O ventilador de teto não é páreo para o bafo quente que sobe do asfalto e entra pela velha janela do apartamento. A cama, dura e desconfortável, também não contribui em nada para que eu passe alguns minutos deitado depois de acordar.

 

Levanto molhado de suor e vou escovar os dentes, sempre faço isso antes de tomar banho, nessa hora também escuto o som do banheiro do apartamento de cima. Lá mora um velho rabugento. Pelo som, ele tem dificuldade em urinar, talvez tenha algum problema de próstata.

 

Depois de tão poucas horas de um sono tão mal dormido, o chuveiro me traz de volta a realidade. Gostaria que a água estivesse gelada, mas ela desce da caixa morna e pouco refrescante.

 

Enquanto passo a toalha pelas minhas costas, minhas têmporas já estão latejando, suadas novamente. Quando me visto, minhas costas também estão molhadas de suor.

 

Tento me botar a roupa rapidamente. A única camisa limpa e passada é a amarela, manchada na manga. Nossa, como eu fico mal de amarelo. Corro para o ponto de ônibus, chego a tempo de vê-lo passando do outro lado da rua, antes que eu pudesse pegá-lo. Agora serão quarenta minutos de espera. Numa cidade enorme como essa, um dos poucos ônibus que nunca passam tinha que ser justamente o que eu preciso.

 

No trabalho, o dia é exaustivo, mal tenho tempo de comer um sanduíche no meio da tarde, almoço, nem pensar. Para piorar, tomo um esporro sem sentido; devem ter me confundido com alguém, sei lá.

 

Saio tarde e perco a minha carona. Como já era de se esperar, agora chove, e forte. Logo a rua está alagada. Tento me equilibrar sobre o banco do ponto do ônibus, meus sapatos já ensopados, dificultam a tarefa.

 

Depois de quase duas horas de engarrafamento, chego em casa. Tiro a roupa e, triste, constato: tem dias que nem a minha cueca branca da sorte me ajuda.



Escrito por edusenise às 09h28
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Apenas palavras

A caminhada de volta para casa costumava distrair Evanildo. Durante o passeio, meditava sobre as mais variadas coisas e preparava seu espírito para outra noite de estudo. Viúvo, sem filhos e com poucos amigos, aos 62 anos, este senhor de aparência pacata mantinha suas aflições, anseios e dúvidas bem escondidas. Por isso apreciava sua rotina, ocupava-se nas horas solitárias e, à noite, esperava pelo pouco sono que tinha.

 

Durante toda a sua vida a memória prodigiosa facilitou o estudo de novas línguas. Há mais de quatro décadas dedicava-se aos idiomas mais diversos. O seu problema é que quanto mais estudava, mais se martirizava. Dia-a-dia, notava que jamais daria conta de aprender tudo que queria.

 

Ele era doutor em Letras, poliglota renomado, referência em linguagem. Em sua mente armazenara conhecimentos a respeito dos mais diferentes tipos e variações das línguas. Contudo, seu problema não era solucionado por estudos e dedicação. E essa constatação fazia suas esperanças arrefecerem.

 

Quando jovem, sempre reservado e discreto, queria dizer coisas e não sabia como falá-las; não conseguia transformar seus sentimentos em palavras. E foi justamente isso que o levou para o mundo das letras. E mesmo hoje, como um estudioso respeitado internacionalmente, acreditava não ter melhorado muito.

 

Suas meditações, observações e estudos lhe mostravam que quando “recebemos nossa língua” passamos a ter idéia do valor de cada palavra. E a partir deste momento cada uma delas jamais nos é indiferente. São sempre carregadas de sentimentos, idéias, conceitos. Falando de outro modo, ele percebia que os humanos nunca poderiam se pronunciar como robôs, já que, mesmo fora de qualquer contexto, para o homem, cada palavra tem uma conotação especial.

 

Ao mesmo tempo, a ambigüidade das frases lhe mostrava que as significações das coisas são dadas pelo hábito. Os pequenos mal entendidos das conversas cotidianas revelavam isso. Falando a este respeito, gostava de dar como exemplo: "se você vir um pedaço de boi sangrando em um cinema, tomará um susto, da mesma forma, você encara isso com total tranqüilidade quando vai ao açougue”.

 

A questão era que os fonemas e morfemas da Língua Portuguesa não eram suficientes para que ele transmitisse o que sentia. É verdade que o estudo das outras línguas havia ajudado na formulação das suas idéias, mas isto também não bastava. Seus sentimentos estavam aprisionados dentro de seu corpo. Isto o consumia.

 

A caminhada se aproximava do final, assim como a vida de Evanildo. Chegando em casa ele passaria mais uma noite estudando, mas jamais encontraria nas letras as respostas para a sua angústia.



Escrito por edusenise às 17h11
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A grama do vizinho

 

Nós trabalhávamos juntos. Ela era competente, simpática e certinha, às vezes até careta demais. Eu era um profissional medíocre, pouco importante para a empresa, porém, popular entre os colegas, fazia algum sucesso com as mulheres, o que me permitia ter uma interessante fama de galinha. Ela tinha namorado.

 

Em um evento do trabalho a notei me olhando pela primeira vez. Gostei. Era uma festa, eu estava saindo com uma menina de outro setor e andava meio enjoado, seria interessante investigar se aquela simpática-bem-sucedida-certinha estava mesmo se interessando por mim. A partir daquele momento passei a reparar mais nela.

 

Dois ou três dias depois, arrumei um pretexto para lhe mandar um e-mail. A mensagem foi prontamente respondida, com uma pressa que não era necessária ao assunto e um afeto que não me parecia muito comum para a relação de trabalho. Bom, ela tinha namorado, eu até conhecia o cara, ele trabalhava na empresa. A bem da verdade, ele conseguia ser mais irrelevante do que eu, vivia a margem dela. Assim, deixei de me importar com ele.

 

Naquela semana e nos dias seguintes passei a andar mais pelo corredor da sala dela, queria receber seus sorrisos. Confesso que esperava notar seu nervosismo ao me olhar toda vez que saia para almoçar de mãos dadas com o namorado. Ela estava interessada em mim, era evidente. E se eu precisasse de alguma confirmação, tudo ficou mais óbvio quando ela tomou a iniciativa de me mandar um e-mail. Inventou uma dúvida, uma questão para me procurar. Excelente.


 

Agora eu precisava montar uma ocasião, criar uma oportunidade para consumar o fato. Ela me parecia metida a certinha demais para cornear o namorado de caso pensado, por mais que ela quisesse, não bastaria que eu simplesmente a chamasse para sair.

 

Aproveitei uma amiga em comum para servir de ponte entre ela e eu. Marcamos um chope numa quinta-feira. Um happy hour despretensioso para todos os outros, mas muitíssimo interessante para ela e para mim. Sem que precisássemos combinar nada, para mim estava subentendido por nós dois que daquele dia não passaria. E não passou.

 

Depois de umas duas horas de bar ela atendeu o celular. Era o namorado. Ela o dispensou em poucos minutos, pelo que eu entendi pareceu dizer que estavam apenas as amigas. Bom, era uma mentira bem fácil de ser desmascarada, mas como diz o ditado “ema, ema, ema, cada um com seus...” bebi mais uns dois ou três chopes, no máximo, até ela se aproximar. Sentou-se ao meu lado para um papo furado.

 

Evidentemente bêbada, evidentemente nervosa, evidentemente me querendo. Toquei sua perna por debaixo da mesa, ela pareceu gostar. Olhei-a nos olhos e perguntei se ela não estava cansada, se não preferia que eu a levasse em casa. Como eu previa, ela aceitou na mesma hora.

 

Já no estacionamento nos pegamos. E, nossa, foi bom! Ela beijava bem, tinha atitude. Desde aquele dia nós voltamos a nos encontrar outras vezes. Sempre às escondidas, ela continuava namorando e eu não me importava. Até preferia que fosse assim.

 

Uns três ou quatro meses depois ela terminou. Nunca perguntei o motivo. Nessa época percebi que ela tentou se aproximar mais, fez questão de me dizer que algumas das amigas dela já sabiam que nós saíamos juntos. Eu, que até então estava me divertindo, não achei ruim, saímos mais vezes, nos encontramos em festas, algumas até com pessoas do trabalho.

 

Logo o ex dela ficou sabendo. Bancou aquela atitude de “não me importo”, mas era evidente o seu desconforto. Eu, de minha parte, não tava nem ligando mesmo. O problema é que menos de dois meses depois eu enjoei dela. Já tava saindo com outra, que até a conhecia. Assim, gradativamente fomos nos afastando. Sem nunca terminar o relacionamento que jamais oficializamos.

 

Depois de um tempo, depois d’eu enjoar de mais umas três, vez por outra eu ou ela nos mandávamos e-mails perguntando como iam as coisas, etc. Eu queria saber se ela ainda estava interessada em um sexo casual; ela sempre parecia querer um pouco mais.

 

Seguimos nos encontrando sem regularidade, por quase dois anos, nem trabalhávamos mais na mesma empresa, mas de tempos em tempos nos víamos, até que um dia ela respondeu um e-mail meu dizendo que estava namorando.

 

Respondi a mensagem fazendo piada, afinal, ela namorar nunca foi impeditivo para nos vermos. Ela, contrariando as minhas expectativas, ficou ofendida e não deu seqüência a conversa. Dias depois insisti em procurá-la, me fiz de arrependido, disse que a brincadeirinha havia sido infeliz e fiquei atento a sua reação. Novamente ela foi seca. Aquilo mexeu comigo.

 

No aniversário de um amigo em comum, tinha certeza que a encontraria. Ela foi com o novo namorado. Era até cômico como ele era parecido com o antigo. Talvez até mais feio, com menos postura, menos interessante. Não entendi o que ela fazia com ele. Nesse dia banquei o simpático e até conversei com o casal. Ele realmente era um mané, chato e tímido demais. Ela, desconfortável, rapidamente arrumou um jeito deles se desvencilharem de mim.

 

Pior que depois daquele dia fiquei com ainda mais vontade de vê-la. Achei-a mais bonita que antes, em melhor forma, mais arrumada. Desejei-a como nunca o fizera. Um dia não resisti e telefonei. Não tinha assunto, só disse que estava perto do trabalho dela e perguntei se ela topava almoçar comigo. Ela disse que não podia. Novamente foi seca e não me deu muita margem para gracinhas.

 

Tudo bem, eu sei quando é hora de um recuo estratégico. Mais cedo ou mais tarde o relacionamento dela vai ter uma crise, ela vai ficar mais receptiva, basta eu me manter presente, sondando como andam as coisas.



Escrito por edusenise às 20h08
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