Arquivos
 21/06/2009 a 27/06/2009
 29/03/2009 a 04/04/2009
 08/03/2009 a 14/03/2009
 22/02/2009 a 28/02/2009
 25/01/2009 a 31/01/2009
 02/11/2008 a 08/11/2008
 12/10/2008 a 18/10/2008
 28/09/2008 a 04/10/2008
 14/09/2008 a 20/09/2008
 07/09/2008 a 13/09/2008
 08/06/2008 a 14/06/2008
 06/04/2008 a 12/04/2008
 17/02/2008 a 23/02/2008
 10/02/2008 a 16/02/2008
 20/01/2008 a 26/01/2008
 06/01/2008 a 12/01/2008
 30/12/2007 a 05/01/2008
 23/12/2007 a 29/12/2007
 24/06/2007 a 30/06/2007
 17/06/2007 a 23/06/2007
 03/06/2007 a 09/06/2007
 27/05/2007 a 02/06/2007
 15/04/2007 a 21/04/2007
 11/03/2007 a 17/03/2007
 04/03/2007 a 10/03/2007
 11/02/2007 a 17/02/2007
 04/02/2007 a 10/02/2007
 21/01/2007 a 27/01/2007
 14/01/2007 a 20/01/2007
 10/12/2006 a 16/12/2006
 03/12/2006 a 09/12/2006
 26/11/2006 a 02/12/2006

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis




Desamores
 


ANSIEDADE

 

Ela ficou de ligar, marcaríamos o jantar para aquela noite, acordei às 11h após mais uma noite mal dormida; nada de interessante na tv, impossível me concentrar em um livro, sair de casa estava fora de cogitação. Acreditava que ela só telefonaria no início da tarde, precisava me ocupar, lavei a pilha de louças que há dias estava na pia, coloquei comida para os peixes e voltei ao ócio.

 

Depois disso, optei por cuidar da minha apresentação, fiz a barba minuciosamente, tomei um bom banho – sem me descuidar do barulho do telefone – passei as últimas gotas de meu único perfume, escolhi uma roupa ao gosto dela e sentei-me no sofá até que, finalmente, ela ligou; chegaria em duas horas.

 

 

Eu já estava pronto quando quarenta minutos depois ela ligou novamente para dizer que se atrasaria e que me encontraria em casa, não no restaurante. Tentei arrumar tudo sem deixar que ela percebesse que eu faxinara a casa apenas pela sua visita. Procurei me acalmar novamente ligando a tv e vendo imagens desconexas enquanto passava por todos os canais.

Enfim, a campainha tocou – sem aviso do interfone, sinal que o meu porteiro ainda a reconhecia – respirei fundo e tentando aparentar casualidade e desprendimento, abri a porta sem passar a vista pelo olho mágico. Sabia que ela me cumprimentaria, iria ao banheiro e, em seguida, me pediria um copo d’água. Assim foi feito. O que me surpreendeu naqueles poucos instantes foi o seu olhar, ele sempre foi denunciativo de todas as suas intenções e, mesmo após tantos meses, tinha certeza que algo aconteceria naquela noite.

 

Já no restaurante ela mostrava seu humor costumeiro, debochava do garçom que nos servia, sugeriu que eu escolhesse a comida, parecia satisfeita. Há meses eu não a via e pouco nela tinha mudado, continuava linda; com sua beleza quase involuntária de traços que se encontram ao acaso formando um rosto anguloso e diferente do habitual, suas feições são como de uma beleza por engano e ela sabia que isso me encantava.

 

Aos poucos, ela parecia tentar se aproximar. Enquanto eu, bem, ela disse que eu estava mais gordo, certamente não era um elogio, mas era verdade. Como também era verdade que eu não sabia como agir. Eu, tal qual um adolescente tímido, gaguejava, não conseguia olhar para ela diretamente, sentia minhas orelhas ficarem vermelhas de tanto nervoso, enquanto isso, meus braços adquiriam vida própria.

 

Esticamos a noite tomando vários chopes e conversando sobre como andavam as nossas vidas, aos poucos até retomamos um pouco do clima de cumplicidade que sempre permeou os nossos papos. Em determinado momento, sem a menor cerimônia, como era seu estilo, ela falou que ainda se sentia atraída por mim. Escutei aquilo tentando aparentar tranqüilidade. Afinal, conhecendo-a como a conhecia, aquela declaração poderia representar quase qualquer coisa.

 

Sua fantástica capacidade de mudar de idéia me atormentava. Da mesma forma, nossa dificuldade em nos libertarmos do nosso antigo relacionamento me atormentava. Afinal, acredito que a vaidade dela se refletia nisso de maneira óbvia, ela sempre gostou de ser adulada. Estou certo de que ela lembrava como eu sou carinhoso. Talvez tivesse saudades do meu (aparente) descaso em relação a ela. Sendo pretensioso, é provável que, na época, isso afetasse sua auto-estima.

 

De qualquer modo, era óbvio que ela não tinha qualquer pudor em me procurar de tempos em tempos, agia com praticidade. Este seu modo egoísta saltava aos olhos de qualquer um que nos conhecesse, mas para mim, eles não importavam, eu ainda era dependente dela. Entendia que jamais voltaríamos a ficar juntos como antes, no entanto, precisava das migalhas que ela ainda tinha a me oferecer.

 

Senti-me humilhado apenas por poucos segundos depois que ela deixou a minha casa, na manhã do dia seguinte. Para evitar esse pensamento horrível, me lembrei de como tinham sido intensos e prazerosos os momentos que passamos na madrugada. Preferi seguir minha rotina, dei comida para os peixes, folheei o jornal, liguei a tv. Minha vida tem sido mesmo bem pouco interessante, mas ao menos ela ainda vem me ver de vez em quando. E eu sei que sempre vou amá-la cada vez mais e a cada despedida mais desesperadamente.



Escrito por edusenise às 09h58
[] [envie esta mensagem
]





DESPREZO

 

Só notei sua existência quando ele me perguntou: “Está lendo Dom Quixote?”. Ora, era claro que sim, afinal, o livro estava sobre a minha pasta, ao meu lado, na mesa. Era dia 29, lembro-me perfeitamente, são as 24 horas mais tristes do meu mês, data em que pago o meu aluguel e a faculdade. Logo, meu humor não era dos melhores. Limitei-me a responder com o maior desdém possível: “Estou”.

 

Ele ignorou minha falta de educação, queria prosear mais, me contou que já tinha lido o livro e gostado. Dessa vez eu apenas abanei a cabeça sem olhá-lo. Acredito que nesse instante ele percebeu que não conversaríamos. Cada um voltou-se para o seu computador e continuamos assistindo a aula, mudos.

 

 

Virei três páginas de calendário até a segunda vez que o vi. Eu falava ao celular, estava no intervalo, a bem da verdade discutia com a minha ex-namorada o fim do nosso relacionamento, estava muito nervoso. Tinha me afastado das pessoas para ter um pouco de privacidade, desliguei-me do que acontecia ao meu redor. Detive-me voltado para a parede, de costas para o corredor. Quando, de repente, ele esbarrou em mim. Fiz a minha pior cara de mau humor e indignação e saí de perto sem dar atenção ao seu acanhado pedido de desculpas.

 

Quando desliguei percebi que ele ainda estava por perto, levantando o olhar notei que somente nós estávamos no pátio. Considerei a possibilidade dele ter se aproximado para escutar a minha conversa. Notei que sua figura gorda e descabelada olhava para aquele ponto no infinito onde enxergamos a nossa solidão. Não dei qualquer valor a esta cena e fui embora.

 

Conversava com um amigo quando o descobri novamente. Era uma daquelas abafadas noites de março, ainda assim ele estava de casaco – ostentando aquele trapo velho e sujo –, o mesmo que usava das outras vezes que o vi. Sentado, sozinho, como deveria ser seu hábito. Aquele personagem me era repulsivo, olhei-o como alguém sem vida própria.

 

Alguém pode julgar a minha ojeriza por aquele rapaz corcunda não tinha muitos motivos, é fato. Defendo-me com a afirmação de que nas poucas vezes em que interagimos, ele sempre me irritou. Sua dicção imperfeita incomodava meus ouvidos na mesma proporção em que a saliva que se acumulava nos lados da sua boca afligia meus olhos. Não sei e nem lembro de mais nada a seu respeito.

 

Saber da sua morte não me consternaria em nada. Pois, a meu ver, aquele cidadão é improfícuo e repugnante. Por isso sua presença em meu velório me desagrada tanto. Quem será que o convidou?



Escrito por edusenise às 11h12
[] [envie esta mensagem
]





DÚVIDA

Remoendo os últimos acontecimentos perdera três quilos, uma semana de trabalho e incontáveis noites de sono. Não suportava mais viver assim, suas reflexões o atormentavam desde aquele fatídico dia 14, agora ele precisava tomar uma decisão. Após tanto tempo amargurado ele tentava se reerguer. Orgulhoso, não pediu ajuda a ninguém. Recolhido, pensou em como procederia, analisou as palavras que deveria utilizar e o momento em que deveria agir, julgava necessário cuidar de tudo antecipadamente, não queria ser surpreendido.

De fato, após horas de martírio ele acreditava ter maquinado todas as possibilidades; baseou sua argumentação em fatos inquestionáveis, confiava em sua oratória e poder de persuasão. Finalmente ele havia se decidido, escolhera X, era isso mesmo que ele queria, acreditava que assim seria feliz, estava convicto. Lutaria com todas as suas forças para a realização de seu desejo. Sozinho, chegou a sorrir satisfeito ao vislumbrar seu futuro tendo esta decisão como ponto de partida.

Levantou-se e foi tomar banho, vestiu-se apropriadamente e foi até lá com tudo laboriosamente arquitetado; agiria com naturalidade e não daria pistas a respeito da sua decisão até que o momento fosse perfeito. Cheio de satisfação, notou que tudo transcorria segundo as suas previsões; a hora se aproximava. Estava impressionado com a própria serenidade, fruto do sentimento de paz por, finalmente, ter definido o que queria.

Pediu licença e, com segurança, clareza de idéias, eloqüência e desenvoltura, disse:
- Y. 
 



Escrito por edusenise às 14h49
[] [envie esta mensagem
]





REMORSO

 

O motivo da discussão era idiota, assim como o de outras de nossas brigas. Da ofensa, algo comum entre nós, quer dizer, comum para mim quando falava com ele, passei aos empurrões. Neste momento ele finalmente reagiu, quando eu já gritava.

 

- Eu não mereço isso, quero apenas o meu espaço. Não seja idiota, sem mim você não vive!

 

Realmente, ele acreditava ser uma necessidade para minha vida, não um estorvo. Até então eu nunca tinha pensado a respeito.

 

Em resposta a sua frase, parte verdadeira e parte afrontante, soquei-o no estômago. Ele me fuzilou com o olhar, indignado, depois, tentou me afastar. Tamanha era a sua inabilidade para as lutas que isso foi quase cômico. Joguei-o no chão e dei as costas com o desdém de um macho dominante que já se alimentou da melhor parte da presa e deixa as sobras para o restante da matilha.

 

- Covarde, você se acha muito macho por me derrubar? Você nunca vai ter o meu respeito.

 

Não ouvi mais nada depois disso. Pulei em sua direção (que ainda se contorcia de dor por causa do soco). Segurei seus braços com a mão esquerda e coloquei meu cotovelo pressionando o seu pescoço.

 

Sempre soube que eu era o mais forte dos dois, a última vez que perdi uma rinha contra ele deveria fazer dez anos. Meu pai não era mesmo afeito a lutas. Costumava ceder antes que partíssemos para a agressão física.

 

Quando ele parou de reagir suspeitei que estava tentando me enganar. Afinal, já havíamos brigado outras vezes e jamais acontecera algo parecido. É verdade que nunca tínhamos nos engalfinhado daquele jeito, de qualquer modo, não acreditava que ele pudesse desmaiar quando o imobilizei.

 

Só percebi que algo estava realmente mal quando me levantei e ele continuou jogado, na mesma posição em que eu o deixei. Sua respiração estava barulhenta e apressada, acho que eram espasmos. Dei tapas no seu rosto tentando reanimá-lo, nada aconteceu. Chamei-o pelo nome, nada. Nervoso, o sacudi novamente, até que seus olhos readquiriram vida e sua respiração se normalizou. Ele demorou alguns segundos para entender o que tinha acontecido, então, sereno, perguntou:

 

- Por que você fez isso?

 

Não sabia responder aquela pergunta. Abracei-o e choramos como crianças desamparadas deitados no chão de nossa casa.

 

Este episódio é a minha maior vergonha. Atualmente, penso nisso quase todos os dias, relembro com terror a sua face desacordada, a fragilidade de seu corpo sem saúde, o imbecil motivo de minha raiva.

 

Nunca esqueci aquilo. E, pior, nunca soube se meu pai realmente me perdoou; ele morreu naquela tarde, enfarto fulminante.

 

A frase “sem mim você não vive” esteve em meus pesadelos desde então. Ele estava mesmo certo, hoje, quase cinqüenta anos depois, é a minha morte que se aproxima, e eu percebo que neste tempo apenas sobrevivi. Anseio pela oportunidade de estar com ele novamente. Seria, enfim, o momento de pedir perdão. E creiam, só não acelerei este processo dando cabo da minha própria existência porque acredito que não o verei no outro mundo. Afinal, tenho fé na justiça divina e alguém como ele não pode ter um castigo como passar a eternidade ao meu lado.

 



Escrito por edusenise às 10h58
[] [envie esta mensagem
]





INDIFERENÇA

 

 

 

Acabo de desligar o telefone.

 

Era a Márcia, queria me ver. Também gostaria de vê-la, mas acho que não devemos, essa relação acabou. Conversamos por quase uma hora. Ela chorava, ameaçava se matar. Eu não me abalei, acho que ela exagerava. Não mesmo dar tanto crédito para o que dizem as mulheres. A última vez que fiz isso foi na época em que eu era perdidamente apaixonado pela Liana.

 

Época de aflição diga-se de passagem (uma expressão questionável, dizer de passagem, por onde? para onde?). Chega a ser triste pensar em um sentimento como a paixão atuando como força motriz de angústias e tormentos; era a dor do desamor. E para que não haja injustiça, registro: falo do meu desamor perante a minha própria figura, não de um em relação ao outro.

 

Quando me dizia perdidamente apaixonado, estava certo de ter encontrado a mais apropriada expressão para descrever e adjetivar meus sentimentos. A experiência de gostar de alguém mais do que de si próprio, foi o mais devastador erro que permiti a mim mesmo em toda a vida.

 

Passei dias e noites tentando entender o que deveria fazer, tentando imaginar quais seriam as suas reações para que eu nunca fosse surpreendido e pudesse, sempre, ter algo bom a dizer. Fui um idiota pretensioso. Mais que isso, acreditei na surrada (e pouco verossímil) frase “às vezes, a vida imita os filmes”. Louco como estava nunca seria um bom amante, sequer uma boa companhia. Então Liana me deixou.

 

Nunca desejei tanto a morte quanto nos dias posteriores a nossa despedida. Aliás, experiência aniquiladora esta: foi como ser informado que não cumpria com as expectativas, eu não era bom o suficiente para ela. O mais dolorido era escutar isso daquela que eu julgava a mulher da minha vida sendo dito com a mesma frieza de uma funcionária de RH que responde a um candidato mal preparado para o emprego.

 

Desde então eu estava perdido. Minha bússola apontava para o sul e o meu sol se punha no oeste. Caminhava sem rumo, cego como o Édipo velho mas sem um Tirésias para antever minha desgraça. Foi neste momento que surgiu Márcia, a minha Antígona.

 

Num primeiro momento não estava disposto a tê-la por perto, queria ficar só, temia decepcionar-me novamente. Mas num poderoso e solitário ato de desobediência ela insistiu em aproximar-se de mim e guiar-me para fora do labirinto em que me encontrava. Márcia foi meu norte, foi meus olhos, foi a energia que eu precisava para reerguer-me. Forte e agressiva ela é capaz de arriscar tudo em defesa dos seus princípios. Gosta de abordar as questões dos valores da sociedade, contrapontos entre o que é ou não justo ou certo. Conversando sobre isso discordamos quase sempre.

 

Era uma manhã de sábado quando ela levantou-se mais cedo e saiu do quarto, sua idéia era descer para comprar pão e me trazer o café na cama. Sem dinheiro trocado resolveu pegá-lo na minha carteira que descansava sobre a cômoda. Lá, achou um bilhete com um número de telefone e o nome de uma outra mulher. Viu-se inesperadamente traída por aquele que ela tinha trazido de volta a vida. E era verdade, agi como um escorpião.

 

Joguei fora todo o amor que uma pessoa dedicada e cheia de qualidades poderia me dar. Fiz isso em troca de sexo. Não sei se me arrependo.

 



Escrito por edusenise às 09h20
[] [envie esta mensagem
]





ANGÚSTIA

Duas moedas

Atrasado para o trabalho, como de hábito, entrei no ônibus e procurei um lugar para me sentar e ler meu livro, escolhi um único banco vazio, ao lado da janela. Parei em frente a ele e pedi licença para uma mulher razoavelmente bonita que ocupava o assento do corredor. Naquele momento eu vi as duas moedas, estavam sobre o estofado, provavelmente tinham caído da bolsa dela. Bancando o bom samaritano falei algo como: “o seu dinheiro caiu” apontando em direção àquele trocado.

 

Ela sorriu em agradecimento e, cheia de naturalidade, pegou as duas moedas enquanto eu me sentava e abria o livro. Nem notei que ela não as guardou; segurou-as sem jeito por algum tempo, me falou que aqueles dinheiros não eram dela e o recolocou no banco quando, em seguida, levantou-se para sair do ônibus.

 

Assim, lá estava eu, sentado ao lado daquelas moedas sem dono, em um primeiro momento olhei-as com desprezo, elas estavam tão bem acomodadas naquele banco que davam a impressão de que não cairiam dali nem se o motorista desse trezentas arrancadas e freadas bruscas, eram como dois passageiros quaisquer, talvez até já fizessem parte daquele ambiente.

 

 

O ônibus estava começando a ficar cheio, esperei mais um pouco e peguei-as. Segurei-as com medo de que alguém percebesse que não eram minhas. Também não as guardei. Estava estranhamente nervoso, observava aquelas moedas rigorosamente iguais, não só tinham o mesmo valor como pareciam parte uma da outra, como se sempre estivessem juntas. De repente a trocadora olhou em minha direção e falou: “psiu” arregalei meus olhos enquanto o meu coração disparava, sentia-me um criminoso pego em flagrante. Mas ela só queria indicar que aquele era o ponto onde uma pessoa pediu para saltar.

 

Voltei-me para aquelas duas moedas cheio de arrependimento e quis recolocá-las no lugar onde as achei, assim como tinha feito aquela menina razoavelmente bonita. Estava prestes a deixá-las no banco novamente quando olhei para o lado e avistei uma conhecida; era uma mulher do meu trabalho, de outro setor, uma daquelas pessoas que dizemos “conhecer de vista”. Não sabia desde quando ela estava ali, será que ela tinha me visto pegando aquele dinheiro? O que pensaria de mim caso me visse, simplesmente, largando duas moedas em um banco de ônibus? Tentei não pensar mais neste assunto e voltei a ler o livro, e, até sorri, quando um dos personagens do romance dizia: “a felicidade está em nós mesmos”.

 

Esse dinheiro estava, definitivamente, me dando azar, queria me livrar dele, mas não simplesmente jogá-lo fora. Decidi dá-lo para algum mendigo que encontrasse pelo caminho. Fácil imaginar que justamente nesse dia eu não achei nenhum. Passei o dia com as moedas sobre a mesa, procurei não olhar para elas ao mesmo tempo em que tentava deixá-las suficientemente visíveis para que alguém se interessasse em pegá-las. Caso alguém perguntasse a respeito delas eu diria que não me pertenciam.

 

Ao final do expediente resolvi ir embora e deixá-las lá, torcendo para que, durante a noite, algum funcionário da limpeza resolvesse se apropriar delas, afinal, eram apenas duas moedas, perdidas numa mesa de escritório. Peguei um ônibus para casa, dessa vez ele estava quase totalmente vazio, escolhi um banco aleatoriamente e quando ia me sentar observei que, naquele lugar, havia duas moedas.



Escrito por edusenise às 23h09
[] [envie esta mensagem
]





ÓDIO

 

 

 

Quem te viu, quem te vê?

 

Ei, você, homem macerado, seu bigode caricato me assusta assim como a sua repulsiva máquina de fotografar. Câmera obsoleta, assim como seu dono. Pessoa estranha que sai pela noite para incomodar os que se amam, os que fazem festa, os que não te querem por perto. Seu prazer frívolo não me atormenta, contudo, me repele.

 

Prefiro me afastar, optei não te ver, sua presença me ojeriza. Ainda assim, eventualmente, sou obrigado a estar contigo. Aqui confesso o meu desprazer com sua presença, registro meu descontentamento com o seu existir. Cidadão mortificado que vez por outra cruza o meu caminho você não é digno de nenhum sentimento generoso.

 

As noites passam e você continua neste insólito lugar. Sítio que te merece. Vaga entre travestis, pivetes, ladrões, malandros e outros marginais, nenhuma destas bestas é pior que você. Eu é que não deveria estar aqui.

 

Inicio o quarto parágrafo, até aqui apenas reclamei. Recrimino-me. Então aproveito o ensejo para te agradecer. Obrigado por não falar. Seria ainda mais desgastante para nós, seres vivos, escutarmos sua voz. Sua cara sonsa, testa enrugada, a ausência do queixo e seu andar bizonho já bastam. Não, o senhor - humpf, senhor... - realmente não precisa dizer nada.

 

Quem te viu? Quem quer te ver?



Escrito por edusenise às 17h48
[] [envie esta mensagem
]



 
  [ Ver arquivos anteriores ]