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Desamores
 


FIXAÇÃO

Seios

Completamente nu ele olhava para aquele par de peitos e ainda não acreditava. Tocou-os primeiro com receio, depois com carinho, admiração, orgulho e, por fim, desejo. Eram mesmo maravilhosos.

Deteve-se em cada centímetro, ele costumava ser tremendamente crítico, ainda assim não havia qualquer ressalva a ser feita. Estava mesmo extasiado. O tamanho certo, rígidos, perfeitos na cor e na forma, tudo neles era belo, uma verdadeira obra de arte.

Pode parecer exagero, mas enquanto ele admirava aquele monumento sua imaginação produziu um rápido filme em que recordou fatos passados. Naquele instante, num quarto barato de uma pensão de quinta categoria, sentia-se excitado como nunca.

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A plenitude das formas daqueles seios dispensariam a descrição do corpo que os acompanhava, de qualquer modo, daremos alguns detalhes a respeito de Cleópatra.

Seus cabelos pretos, finos e lisos, maltratados, é verdade, compunham um visual interessante naquela face exótica, com as maçãs do rosto bem coradas e aqueles lábios grossos como suas pernas. Tinha coisa de 1,75m, chamava atenção quando parava na esquina.

Nos estudos, não terminara o ginásio. Saíra de casa aos dezoito anos quando adotou o nome da imperatriz egípcia e abandonou o pai, um bêbado desrespeitoso das convenções morais que a sociedade nos impõe.

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Aos onze anos sua vizinha deixou que ele a visse de peito nu enquanto experimentava um sutiã que compraria. O fez apenas para provocá-lo, pois já era letrada no sexo e sedução e quis se divertir as custas da excitação que aquilo poderia lhe provocar.

Naquele momento ela decepcionou-se, o olhar do menino tinha desejo, claro, no entanto, seu ar chegava a ser de surpresa e admiração. Afinal, não conhecera a mãe e nunca antes tivera visto uma mulher nua, em carne e osso.

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A opção de "viver do sexo" não era encarada com qualquer remorso. A bem da verdade, se o homem não fosse um sujo isso lhe dava até prazer. Coisa que as forçosas relações com o seu pai nunca haviam proporcionado. Fazia ponto na rua há pouco mais de seis meses, antes, um velho libanês lhe dava sustento em troca de favores que ele não podia, ou não queria, pedir para a esposa.

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Ainda sob o transe que aquela visão porporcionara lembrava-se do primeiro par de seios que acariciou, que pôs a boca. Na época, o fez com extremo tesão e curiosidade. Praticamente uma criança, quando fantasiava a respeito, enquanto se masturbava, não sabia qual seria o gosto daquela parte do corpo. Acreditava que poderia ser como chupar um dedo, este pensamento não o encantava muito.

Depois, quando despiu sua primeira prostituta e agarrou seus seios, percebeu o óbvio, colocar a boca em um peito não era como colocá-la em um dedo ou em qualquer outra parte do corpo. Algumas vezes ele lamentou-se por não ter tido a oportunidade de fazer isso mais vezes. E dali em diante desenvolveu uma fixação ainda maior por aquela parte da anatomia humana.

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Desde que saíra de casa tinha apenas uma certeza, jamais voltaria para a morar com o pai, mesmo que ele pedisse, como chegou a fazer. Também não pediria favores para nenhum dos poucos familiares. Não que tivesse vergonha do que se transformara, seu porém era o orgulho, sentimento que sustentava, ou tentava sustentar, acima de qualquer humilhação.

Cleópatra era nova na rua, precisava de mais clientes para se manter. Julgava ser necessário um diferencial e foi em busca dele considerando o interesse dos homens. Foi assim que teve a idéia de transformar-se, queria algo que passaria a ser o seu chamariz. Algo diferente para o seu anúncio nos classificados.

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Naquele quarto, frente ao espelho, Cléber, ou melhor, Cleópatra, sorria satisfeito, o implante de silicone tinha ficado perfeito; 450ml que fariam a diferença frente aos outros travestis da Lapa. Sem contar que, finalmente, ele podia ver, tocar (e até, com algum esforço, lamber) o quanto quisesse um par de seios perfeitos, dignos de uma mulher. Tinha pagado bem por aqueles peitos e acreditava que o investimento valera a pena.



Escrito por edusenise às 21h40
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TIMIDEZ

Mitologia Grega

Epimeteu se considerava um idiota. Tinha a auto-estima de um palerma. Olhava-se no espelho e contemplava a personificação da mediocridade. Reconhecia ter duas ou três qualidades, contudo, elas não dissipavam o péssimo conceito que ele tinha de sua própria imagem: um infortunado, alguém cujo destino reservara os mais indignos percalços. A começar por seu inusitado nome, vindo da excentricidade de seu pai, professor de Filosofia de uma escola pública normalista.

No passado, era motivo de galhofa entre os meninos da rua optando por ir a missa domingo pela manhã ao invés de jogar futebol. No presente, era o maior alvo das zombarias dos colegas por ainda ser virgem. Nesta idade, a perversidade dos homens não possui qualquer tipo de limites e ele sentia essa desventura a cada festa, a cada ocasião em que se reportava a uma garota.

Acanhado em demasia, sofria para declarar seu interesse por suas paixões. Temia a negação, a conseqüente troça dos colegas e a eterna continuação de sua "condição inferior" a dos demais. Assim, prudentemente, resguardava-se, não expunha seus sentimentos. O confinamento de suas sensações dava-se impensadamente, não tinha grandes amigos, dedicava seu tempo aos estudos, igreja e ao seu grande confidente, o diário onde registrava suas reais impressões a respeito das pessoas que o cercavam.

Mesmo naquele caderno de um único leitor, Epimeteu, que, aparentemente, não era pior, mais feio, ou desinteressante do que qualquer outro de seu meio jurava-se um tolo, reclamava de seus cacoete e imperfeições, cobrava-se por agir melhor. Para ele, escrever não servia para esquivar-se de seus martírios, mas, daquela forma, podia externar os seus anseios, inclusive a sua mais recente e arrebatadora paixão, uma aluna de seu pai, Pandora.

Filha temporã de um velho casal de hippies, ela reinava em meio as centenas de adolescentes da escola, cabelos lisos, pele alva, cheiro doce, olhos rasgados, era como uma miragem, um ponto de referência naquele ambiente. Como há de se presumir, era cortejada em proporção a sua beleza – mais que nenhuma outra. Seu desprendimento e simpatia cativavam mesmo os mais céticos, ela era daquelas figuras singulares, absolutamente diferente de Epimeteu, um garoto comum e retraído.

De alma belicosa, ela amava a música, movimentava-se com graça e leveza e era muito hábil com as palavras. Mas também não era feita apenas de bons predicados, egocêntrica, astuta, cínica, dominava a arte da mentira e das artimanhas. Vivendo em meio a tantos desejos, sua beleza seduzia e atormentava os outros.

Epimeteu foi apresentado a sua musa por acaso, por seu pai. Um dia ele ligara para casa e pedira para que o filho lhe levasse um livro no trabalho. Moravam a dois quarteirões da escola e isso não era problema algum. Desde aquele dia sempre que pôde, e algumas vezes quando não poderia, foi até a escola onde o pai lecionava. Estava tomado por um amor platônico.

Diante das disparidades entre as suas personalidades é evidente que os valores de Pandora eram muito diferentes dos de Epimeteu. Ela até tratava-o com cortesia, achava interessante o seu jeito tímido e religioso. Afeiçoou-se pela sua figura que lhe era extremamente simpática. Tinha absoluta noção dos sentimentos dele por ela e regozijava com isso, principalmente quando percebeu que poderia tirar proveito daquela situação. Pois dedicando o seu tempo e atenção àquele que era motivo de escárnio ela tornava-se ainda mais diferente e chamava a atenção para si. Esta sensação a extasiava.

Para a inveja de todos os que debochavam daquele tímido rapaz, iniciaram um namorico. Aquilo que para ela não era nada muito importante, para ele era o melhor momento de sua vida, pela primeira vez ele não se sentia pior que os outros, ousava até sentir-se admirado por aqueles que lhe queriam bem. Via o orgulho no olhar de seu pai quando dizia que sairia com a namorada.

Cinco meses depois e a proximidade entre eles era grande. Pandora, nada tinha de pudica Só que na ânsia de agradar Epimeteu preocupava-se demais em não fazer nada errado; sempre se atrapalhava nos momentos mais íntimos entre os dois. Até que num domingo à noite, na varanda da casa dela, enquanto seus pais viam TV, ela, sentou-se no colo dele e levantando a saia.

Sem titubear ele seguiu as suas ordens. Em minutos estava consumado o fato. Foi uma primeira vez como outras tantas, nervosa, sem romantismo, cheia de pressa, com um pouco de medo e com muito de embaraço e inabilidade.

Aquela situação se repetiu por outras quatro vezes, nos quatro domingos seguintes. Até que a regra de Pandora não chegou. No momento em que tiveram certeza do que acontecera abateram-nos todos os males que atormentam a humanidade; a doença e o desgosto do pai de Epimeteu, que se decepcionara com a imprudência do filho; nela, as dores de uma gravidez complicada e sofrida; a inveja dos garotos que antes zombavam dele e agora só pensavam nas causas e não nas conseqüências; o ciúme de Pandora, debutante na insegurança, passara a ter do pai de seu filho; o sentimento de vingança das moças que anteriormente achavam-se diminuídas por ela... a miséria e o sofrimento, tornaram-se palavras freqüentes em seus cotidianos.

É, talvez a velocidade do mal ainda surpreenda aos puros.



Escrito por edusenise às 22h41
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Domingo à noite, excelente hora para uns esclarecimentos. Então respondendo as pessoas que me perguntaram por e-mail, MSN e pessoalmente:

 

1 – não, o as histórias do blog não são reais. Seria um contra-senso muito grande acreditar que alguém que sempre preservou a sua vida particular ia, do nada, criar algo como um “diário online”. Pela última vez: eu não bati no meu pai, não odeio o velho fotógrafo e nem tenho recebido visitas íntimas de nenhuma mulher. Mas sim, uma vez achei duas moedas no ônibus.

 

2 – até agora postei apenas histórias escritas há mais de quatro anos. Nenhum dos contos é recente.

 

3 – nenhuma das personagens sou eu. Todas as personagens têm um pouco de mim, óbvio, foi eu quem as criou.

 

4 – o blog só foi divulgado para amigos. Dessa forma, espero receber as críticas e sugestões dos malucos que se interessaram em ler algo aqui, pessoalmente, ou via comentários no blog.

 

5 – para quaisquer outros esclarecimentos: senise@gmail.com



Escrito por edusenise às 23h10
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