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Desamores
 


Desencontro

 

Era uma verdadeira ressurreição. Doze anos depois ele voltava a se sentir vivo, interessado em ver pessoas, preocupado com a aparência. Tudo por causa dela. Ao acordar, sempre pensava nela, lembrava-se daquele sorriso, do humor irônico, do jeito materno, ponderava a respeito de significados ocultos em suas frases, procurava pistas que indicassem algum interesse, um indício de que poderia se aproximar mais.

 

Criou as mais diversas teorias, acreditou estar jogando o jogo certo, envolvendo-a. Em certos momentos acreditava que exagerava na dose. Refletia sobre procurá-la menos, dar margem para que ela se aproximasse; não se expor tanto. Mas não se controlava, não conseguia. Não dominava suas emoções ao saber de sua presença, ao vê-la, ao falar com ela. Denunciava-se a todo instante. Justo ele, enxadrista, maquiavélico, sensato e, acima de tudo isso, calejado, baixava a guarda como um jovem principiante quando ela estava por perto. E estranhamente, isso não o preocupava.

 

Nutria tanto o seu gostar, idealizava tanto as suas conversas, entregava-se tanto ao próprio coração, que jamais cogitou a idéia dela se aproveitar de seus sentimentos. Ela lhe expirava a mais absoluta confiança e, melhor que isso, parecia que ela também se sentia à vontade com ele. Pela primeira vez em tantos anos ele realmente gostava de alguém. E gostava intensamente, sem seu costumeiro medo de se envolver, nascido de sua paralisadora baixa-estima.

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Ela adorava a sensação de ter domínio sobre si mesma, controlar seu corpo, sua mente. Fazia constantes auto-avaliações. Era uma pessoa capaz de perceber suas qualidades e limites. Avaliando e reavaliando cenários, ela sentia as reais intenções de seus interlocutores. Também gostava de se vender como humilde para cavar elogios a si mesma. Em verdade, tinha sua pontinha de arrogância. Nada de exagerado, apenas aquela leve autoconfiança capaz de deixar uma mulher ainda mais bonita.

 

Tremendamente bem humorada, ela gostava daqueles que a faziam rir. E ele conseguia fazer isso. Gostava do seu humor sarcástico, seco e sem pudor de fazer graça a respeito de si mesmo. Ela achava inusitado aquele jeito dele, parecendo pouco ou nada preocupado em agradar as pessoas de quem não gostava e, simultaneamente, sendo tremendamente afável e carinhoso com ela.

 

A personalidade dele, intensa, responsável, prendado até, a remetiam a um ideal de homem que eventualmente fora fonte de suas observações. Afinal, ela gostava de dominar a relação, de estabelecer os limites. Contudo, a dedicação dele em conquistá-la, mantendo o respeito e a distancia que a timidez dele impunha, eram algumas das coisas que ela mais sentia orgulho. Andava mais firme, confiante, ao notar como estava sendo cobiçada e divertia-se com o embaraço e rubor que provocava.

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Enquanto ele vinha de séculos sem se envolver com ninguém, o término do último relacionamento dela tinha menos de um mês. Com o passar do tempo, a intimidade ente ambos só aumentou. Mas eles não se tornaram amigos. Mantinham aquela distância típica de quem tem interesse pelo outro. Por inúmeras vezes estiveram a passo de se envolver. E a cada vez que isso era adiado, ele parecia lidar muito mal com a situação. Eram normais o sentimento de ansiedade e uma pontinha de despeito, nestas horas.

 

Já ela, se mantinha forte. Ou ao menos se fazia de fortaleza. E enganava muito bem. Parecia sempre tranqüila, pensava que o destino lhes tinha reservado um futuro juntos. E era justo esse pensamento que a impedia de acreditar que esse dia, “do futuro”, chegara, agora, “no presente”.

 

Sempre se admiraram, se interessavam um pelo outro, sempre que ficavam sozinhos notava-se uma enorme tensão nos gestos de ambos. Evidentemente, eles estavam marcados pela eterna eminência do grande momento. Mas isso nunca aconteceu. Se foi pela falta de fé dele em conseguir o que queria; ou pela crendice dela de que o teria a qualquer momento, não sei lhe dizer.

 



Escrito por edusenise às 12h50
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