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Desamores
 


O defunto maquiado

Assim que chegou ao velório Evanildo se prontificou a fazer um discurso. Queria homenagear o falecido amigo Aurélio. A repentina morte do diretor da escola o deixara realmente abalado. Em plena manhã de sábado, ele, o único professor de Português daquela pequena cidade, um lingüista solitário e mal compreendido, bebeu quatro doses de uísque enquanto tomava coragem para ver o corpo.

E ao chegar perto do caixão, emocionado e um pouco embriagado, ele levantou seu copo e propôs um brinde in memoriam, solicitando a companhia de todos os presentes.

 

Mas conhecendo a sua fama de péssimo orador, prolixo e de fala pretensiosa, apenas oito pessoas se aproximaram. A maioria preferiu ficar onde estava e fazer um silêncio respeitoso enquanto ele começava a falar.

- Os 27 fonemas e oito morfemas da língua portuguesa não são suficientes para que eu transmita o que sinto neste momento. Assim, acho que posso ilustrar esta situação com um exemplo didático. Quando crianças, na época que aprendemos a falar e recebemos a nossa língua, começamos a entender o valor de cada palavra. E a partir desse momento, elas jamais nos serão indiferentes. Substantivos, adjetivos, preposições, ou mesmo os artigos indefinidos, cada um deles terá sempre uma conotação especial.

Dos que se aproximaram, três que estavam mais distantes, disfarçadamente, saíram de perto. Restavam cinco pessoas próximas.

- Com o passar do tempo e de acordo com a quantidade de palavras que conhecemos, possivelmente vamos nos tornar pessoas mais, ou menos, eloqüentes. Mas, sem dúvida alguma, em todos os idiomas deve haver milhares de palavras que são de uso comum. Palavras que nem mesmo lembramos que sabemos de tão usuais que são tais como, pai, mãe, dia, noite, sol, chuva, dormir, acordar, nascer e morrer. Saber essas palavras é o que nos torna humanos, já que é através delas que perpetuamos a nossa cultura.

Com o pretexto de levar a esposa ao toalete, um casal se retirou e um senhor (que parecia não ter escutado nenhuma palavra) também lhe deu as costas sem cerimônia. Naquele instante, três ainda olhavam para ele.

- Mas como diz o ditado, nada mais humano do que errar. Por isso as línguas que habitam este planeta, com suas gramáticas cheias de regras (e exceções) não nos impedem de conviver com milhões de ambigüidades. E é essa imprecisão, esse equívoco, característico dos mal entendidos, das decisões incorretas, das expressões duplo sentido, que eu vejo aqui, na fragilidade desse corpo.

Ele começava a se exasperar quando notou que apenas uma pessoa permanecia firme até ali. Um desconhecido dele. Era o empregado que vinha limpar a piscina, e que havia descoberto o corpo de Aurélio, na manhã daquele dia. E quando ele já estava prestes a concluir seus vinte minutos de falatório incessante, com a dicção dificultada pelo uísque. Exaltou-se completamente!

- Salve os velhos tempos em que nessa cidade nascíamos e morríamos na mesma casa. Tempos em que se bebia para comemorar o nascimento e para se enterrar o defunto. Tempos em que se desfrutava da alegria e a dor sem disfarces e sem maquiagens! Porque isso realmente me choca. Por que esconder suas rugas, seu rosto magro, sua cabeça despelada, seus olhos sem vida e sua aparência fria?! Por que disfarçar o indisfarçável? Aurélio não está mais entre nós!

Como ele não havia participado das providências do velório e do enterro, não sabia quem tinha feito aquilo.

- Não entendo como podem ter maquiado o meu amigo. Não acredito como podem querer embelezar a morte! Ora, a morte é trágica, mas é o fim comum a todos nós! É uma idéia com que temos que nos acostumar. E uma morte maquiada era mórbida demais! Uma morte maquiada serve para agradar aos vivos? Torna-se menos traumática? Isso não faz o menor sentido! Aurélio era um homem de personalidade! Ele jamais cedeu às imposições arbitrárias, do que é bom, adequado, elegante e da moda! Mas não há de ser nada. Onde quer que você esteja, meu amigo, descansará em paz, independentemente da profanação que esses malucos impuseram ao seu corpo!

Com as têmporas saltadas, o corpo curvado e a respiração ofegante, olhando para o seu único ouvinte, Evanildo concluía assim o seu discurso e o seu manifesto. Foi quando o homem que limparia a piscina se aproximou dele e cochichou:

- Me desculpe ter passado o pó de arroz na cara dele. Achei que era melhor disfarçar... Pensei que era segredo... Não sabia que o senhor gostava da pintura que ele usava em casa. Mas se o senhor quiser um pouco da sombra, da base, e do rímel que ele tinha, o estojo de maquiagem, a peruca loira e os vestidos que ele tinha estão numa caixa no armário do quarto!



Escrito por edusenise às 09h48
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O certo

"Eu não tenho porque não dar certo. Aliás, eu já dou certo." Era tão flagrante a segurança daquelas palavras que eu deixei de lado a minha leitura para ver quem era aquela pessoa tão cheia de si. Aproveitei-me dos óculos escuros para acompanhar o que ela falava sem chamar sua atenção. Atrás do jornal, me ajeitei na cadeira de praia. Veria o pôr do sol em Ipanema curioso pela história que ela contaria.

Cercada por três mulheres sentadas em cangas, a oradora continuou "...eu me acho linda, simpática, tenho meu charme, por que não vou dar certo? Não vou me deixar abater por essas coisinhas".

Depois que escutei isso me desanimei. Acreditava que seria brindado com uma narrativa interessante e ela, logo de início, se revelava apenas mais uma pessoa de ego inflado. Pior, ela sequer era bonita, ou charmosa. E aquele cabotinismo era completamente inadequado para alguém que quer parecer simpático.

Desliguei-me do assunto e voltei ao jornal. Antes disso quis perceber se o resto da audiência também havia se desinteressado do conto. Fitei as mulheres sentadas das cangas e notei que elas continuavam a olhar para a contadora da história com aquele sorriso agradável, típico de quem quer demonstrar atenção e generosidade. Deviam ser amigas de longa data, talvez tivessem estudado juntas. Conclui isso pensando que para mim é mais fácil ter paciência e apresso por meus velhos amigos, mesmo que eu ache que eles estão falando bobagens.

Enquanto lia, ou tentava ler, ainda escutava a voz dela. Era uma voz fina, que parecia aguda demais para sair daquela boca grossa, daquele rosto bruto, daquele corpo masculinizado. Distraído, comecei a ler o caderno de esportes. Nossa, o caderno de esportes era tão importante na minha vida de adolescente e hoje raramente eu o pego. Acho que o caderno de esportes é como alguns de meus amigos de escola.

Olhava fotos e títulos, quando inconscientemente, passei a prestar atenção nela novamente. "...sou a caçula de doze filhos de um casal de nordestinos, desses, só sete estão vivos. Por que eu não vou dar certo? Eu já dou certo." Repetia ela a todo instante, como se soubesse que aquela frase que ela usava para pontuar o seu discurso era a única coisa interessante que ela havia falado até então. Ou será que ela percebia que com aquela frase eu me empertigava na cadeira e, vaidosa, ficava feliz por ter mais um ouvinte?

A temática da "filha-de-família-retirante-que-vence-no-sudeste" não era nem um pouco original e a sua voz levemente desagradável e destoante não deveriam ser suficientes para me chamar tanta atenção. Mas vencido pela curiosidade que não me permitia ignorar aquele relato, comecei a tentar adivinhar que peripécias ela contaria e quantas vezes mais ela repetiria o seu presunçoso bordão.

"...trabalhei de dia e estudei de noite. Paguei a faculdade com o meu dinheiro... vivia chapada de segunda a segunda... chupei pau de taxista por vinte merréis..."

Entre calamidades, incidentes e fatos inusitados – alguns bem estereotipados, outros bem estrambóticos - ela falou por cerca de dez minutos. Nesse tempo, repetiu seu mantra "Eu não tenho porque não dar certo. Aliás, eu já dou certo" mais oito vezes.

Depois disso, as quatro amigas recolheram suas coisas e foram embora. Eu fiquei lá mais um pouco. Já que o início de uma noite de outono em Ipanema pode ser bastante interessante. Não havia salva de palmas para o pôr do sol, mas havia duas perguntas, uma reflexão que não saia da minha cabeça. "Eu dou certo? O que é dar certo?"



Escrito por edusenise às 23h27
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