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Desamores
 


Mentirinhas

O Pinto é o estereotipo do "gente boa". Sorriso fácil, gentil, um grande fazedor de amigos. Dermatologista, razoavelmente bem sucedido, com consultório no centro, há algum tempo trabalha mais para se ocupar do que pelo dinheiro que ganha. Nunca quis ser rico, escolheu a medicina por vocação. Casado há mais de vinte anos, pai de dois filhos já adultos, sempre gostou de fazer graça, ainda que isso implicasse em depreciar a si mesmo. Suas histórias – quase sempre mentirosas – faziam a alegria de muitos pacientes e colegas.

Entre um papo e outro ele soltava pérolas como: "Sorte que eu não passei para neurocirurgia na época da residência. Ser médico de micoses dá muito menos trabalho! Na dúvida, peço para passar um azul de metileno e fica tudo bem".

O interessante é que ele nunca havia tentado ser neurocirurgião. Pelo contrário, desde o início da faculdade ele sabia que queria estudar a pele humana. E mais que isso, todos sabiam que ele era um médico muito dedicado, jamais receitaria um placebo ou seria relapso em um diagnóstico.

As segundas e quartas e sextas Dr. Pinto almoçava num pequeno restaurante de uma galeria próxima ao consultório. As duas garçonetes do lugar o conheciam muito bem, serviam-no os pratos de sempre com o capricho que o melhor freguês da casa merecia. Afinal, vinham dele as gorjetas mais generosas e as mais divertidas histórias. A cada refeição Santinha e Glória disputavam avidamente quem levaria o espaguete à bolonhesa, o medalhão com arroz à piamontese, ou a feijoada do Dr., lá conhecido como "Seu Pinto".

Muito crédulas, era normal ver as duas debatendo a respeito das desventuras que ele contava ao longo de toda a semana. Não passava pelas suas cabeças delas que o Seu Pinto pudesse apenas estar se divertindo ou contando histórias mentirosas.

Mas na infinidade de contos e gracejos do Dr., uma novela em especial atiçava a curiosidade das garçonetes: a história do seu casamento. Ele fazia questão de divulgar para todos a felicidade que compartilhava com a esposa; o orgulho que tinha dos filhos; a estabilidade da sua relação. Falava disso com um brilho nos olhos e uma altivez capaz de encantar a menos romântica das mulheres. Mas até aí morreu Neves como diria a Glória. A cereja do bolo, a cobertura do pudim era o motivo ao qual ele creditava todo o sucesso de seu relacionamento que já se encaminhava para as bodas de ouro.

 

"Tudo isso só é possível graças ao Ricardão. É a ele que eu devo a alegria da minha vida. Desde que a minha mulher encontrou esse homem o meu casamento vai às mil maravilhas!" E então emendava uma série de elogios ao amante de sua esposa.

Todos eles entremeados de frases tragicômicas como: "Desde o dia que eu disse para ela ficar com ele e não comigo durante os fins de semana ela anda tão mais calma." Ou "Hoje você pode, por favor, fazer uma quentinha para mim? Mas generosa! Quero uma que sirva três pessoas, o Ricardão vai lá em casa e quero que ele coma bem!" Ou ainda a melhor de todas: "Minha mulher anda tão maravilhosa que ela até parou de me bater quando eu digo que perdi algum dinheiro no bingo! O Ricardão explicou para ela que não era assim que ela vai me colocar no eixo e ela agora conversa comigo. Acho que a partir do mês que vem combinamos eu vou depositar o meu salário na conta dela".

Entre horrorizadas, embasbacadas e penalizadas com as histórias de Seu Pinto, as duas garçonetes ficavam com todas as opções. De vez em quando se permitiam até alguns intrometimentos como dizer que ele não deveria deixar a esposa bater nele. E elas nem imaginavam como isso o deixava satisfeito. Regozijava pela riqueza de detalhes de suas histórias e sua interpretação prefeita.

Antes do recesso de fim de ano ele convidou Roberto, amigo de longa data que tinha ido visitá-lo, para almoçar. E no momento que o antigo parceiro foi ao banheiro, disse para Santinha e Glória, que estava feliz por finalmente elas estarem conhecendo o Ricardão, famoso amante de sua esposa. Obviamente, o clima foi de constrangimento total entre as garçonetes. Enquanto isso, Pinto falava: "Esse é o homem que trouxe a paz e a tranqüilidade para o meu casamento".

Imaginar que Roberto era Ricardão e ver o Seu Pinto conversando tão animadamente com ele, para elas, era surreal demais. Qualquer dúvida a respeito da veracidade das histórias do Dr. ficava para trás naquele dia. Depois chegaram até a admirar a civilidade de ambos. "Nossa, até parecem amigos. Essa mulher ‘deles’ deve ser muito boa para os dois aceitarem dividi-la assim", divagava, Santa.

Naquele dia, depois dos protocolares desejos de boas festas, elas sabiam que o Seu Pinto só estaria de volta em fevereiro, já que a vida toda ele tirou férias no início do verão. No entanto, para surpresa de ambas, na primeira semana do ano ele estava lá, sentado em sua mesa habitual. Lia o jornal e se comportava com a educação de sempre, mas sem o mesmo sorriso. Nem mesmo parecia interessado em contar histórias.

Elas respeitaram esse seu período ruim por três semanas. E já faziam mil conjecturas, estudavam as mais diversas possibilidades. "Teria ele sido abandonado pela esposa?", questionava uma. "Teriam sido ambos abandonados pelo Ricardão?", ponderava a outra. Então, quando já não agüentavam mais, elas, sempre tão íntimas do Dr. Pinto – ao menos naquele ambiente – perguntaram o motivo de tanta tristeza.

"Oh, minhas queridas, tenho mesmo um probleminha chamado melancolia", sentenciou. Para, em seguida, explicar: "vou me aposentar". Portanto, já sentia saudades. Talvez até por isso tenha resolvido aproveitar o momento para se despedir.

Pegas de surpresa, entre um lamento e outro, elas lhe desejaram felicidades e clamaram para que de vez em quando ele viesse almoçar no restaurante. Ele evitou responder a esse respeito. Deu uma gorjeta bem mais generosa que o habitual e foi-se embora.

Três meses depois, como os médicos previam, Pinto morreu. A doença já tinha tomado o seu corpo. Mas Santa e Glória nunca ficaram sabendo de nada. Certa vez uma delas até achou que o viu no calçadão de Copacabana, de mãos dadas com uma senhora e conversando com o Ricardão.



Escrito por edusenise às 12h46
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