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Desamores
 


AFLIÇÃO

Saí de lá muito confiante, com uma sensação ótima, de dever cumprido. Assim que passei pela portaria tive que conter minha vontade de tomar um chope para comemorar. Refletia a respeito do encontro e avaliava aquela como uma de minhas melhores atuações. Acreditava que tinha realmente “mandado bem”. Fui simpático, polido, confiante. E confiante na medida certa, sem esbarrar na arrogância, como me é peculiar. Acreditei estar causando uma excelente impressão, até mesmo quando tomei a iniciativa de me apresentar primeiro. Penso que falei de mim com naturalidade, mostrando meus pontos positivos sem parecer pedante ou egocêntrico. Enfim, me mostrei seguro.

Passado o primeiro momento, de euforia, pela minha pretensa boa atuação veio a análise mais racional, a lembrança de uns dois ou três pontos em que não conduzi a conversa como deveria. É verdade que deixei de mencionar coisas importantes; de qualquer forma, eu tinha bem mais prós do que contras. As pequenas falhas seriam diluídas pelos acertos que existiram e pela empatia que eu pensava ter gerado. O interlocutor não era uma pessoa de sorriso fácil, mas creio que o vi levantando as sobrancelhas em sinal de aprovação em alguns momentos.

No fim do dia eu já não estava tão animado, me recordava de outras oportunidades como aquela. Foram ocasiões em que saíra exultante, peito estufado, olhar decidido e a certeza de ter feito tudo corretamente. Hoje, estas antigas oportunidades são lembranças de alguns de meus piores tombos. Àquela altura do dia a confiança não era tão grande, mas a expectativa era enorme. Era quarta-feira, ele ficara de ligar para confirmar o resultado até a sexta. Era um prazo bem honesto.

Passei toda a quinta-feira olhando para o meu celular, esperando-o tocar. Nada. Ao menos nada da ligação que eu queria. Cheguei a atender alguns amigos com evidente má vontade pela simples decepção de serem eles a me telefonar e não a pessoa que eu queria atender. Em um determinado momento, mais para o fim do dia, o visor do celular não mostrou o número. “Hum, ligação de número restrito, é agora”. Não era. Durante a tarde fui ficando mais nervoso, a expectativa que havia tomado o lugar da confiança agora cedia espaço para o temor e a incerteza. Tentava me acalmar com a afirmação de que ligaria até sexta. Imaginei as equações de Matemática que aprendemos no 1º grau, me consolava com o conceito de que o intervalo de tempo seria fechado apenas no fim da sexta-feira.

No dia seguinte eu estava uma pilha, tremendamente mal humorado. Fui uma péssima companhia para todos, o tempo todo. O telefone não tocava e eu perdia as esperanças. Afinal, o prazo que havia sido dado estava se esgotando. Fui abatido por uma sensação aterradora de derrota. Mais ainda, uma derrota incompreendida, algo que fugia completamente ao meu controle. O telefone não tocava e eu me rasgava de ódio de mim mesmo, da minha ingenuidade, como eu podia acreditar que tinha ido bem? O telefone não tocava e eu não entendia como eu podia ter feito uma leitura tão errada daquela situação. O telefone não tocava e eu estava chegando ao ápice do meu mau humor.

Até que finalmente, às 18h, dei-me por vencido. Vesti um short, camisa e fui caminhar. Queria espairecer, tentar ocupar minha mente com outra coisa. Levei o celular, por desencargo de consciência, mas como é fácil imaginar, ele não tocou e a caminhada não deu certo. A cada passo que dava eu imaginava os outros, o que iam pensar, como eu deveria lidar com a frustração das expectativas deles e das minhas próprias. Às vezes até tentava ser positivo, mas depois me permiti curtir aquele momento de luto. Desisti de ver pessoas e bonitas paisagens e voltei para casa. Resolvi chorar na cama, já que lá é lugar quentinho e aconchegante.

Ao abrir a porta de casa ainda tive que esforçar para dar um “boa noite” com um sorriso amarelo para a minha mãe que chegava da missa (tomara que ela não tenha rezado por mim!). A resposta, “Boa noite, meu filho”, foi dada com um olhar cheio de enternecimento. Mas, em seguida, com um sorriso, ela falou: “Tomei um susto quando o telefone tocou às 18h45, era para avisar que você foi aprovado para a próxima fase”.

Naquela pequena fração de segundos, a sensação de alívio, a felicidade, a retirada do peso de meus ombros, tudo surgiu de maneira tão espontânea e tão intensa que eu soquei o ar como o Dunga, após fazer aquele gol de pênalti, na Copa de 94. Animado, já comecei a fazer planos, queria desde já, começar a me preparar para a próxima etapa. Minha apresentação, roupa, barba bem feita, sapatos, tudo deveria estar perfeito. Será que a cueca da sorte era necessária? Ou seria melhor deixá-la para uma etapa final? Sic, não podia gastar a sorte antes da hora. 

Animadíssimo, perguntei: “Mas mãe, quando é a próxima etapa?”. “Ah, meu filho, a moça que ligou não falou. Disse apenas que liga novamente no início da semana que vem”.

Mas se ela considerar até a quarta-feira a tarde como o início da semana, eu terei que aguardar o telefone tocar por mais cinco dias! 



Escrito por edusenise às 13h26
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