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Desamores
 


INSEGURANÇA

Ele adorava repetir a frase “eu tenho uma teoria sobre isso”. Geralmente fazia essa afirmação com um gesto bastante caricato: balançava a mão direita no sentido anti-horário, num movimento de 180 graus, parando na altura do peito; o indicador estendido dava o toque de sabe-tudo que ele queria.

Mas até que, de uma forma ou de outra, ele falava a verdade. Pois, para ele, teoria era qualquer opinião (dele próprio) a respeito de qualquer assunto, por mais banal que fosse. Assim, ele nunca dava um simples pitaco, ou mesmo estendia uma conversa fiada. Ele queria sempre tecer comentários embasados, com modos solenes para parecer ter sempre uma reflexão, uma hipótese, a respeito de tudo que o rodeava.

Essa sua pose de estudioso da mente humana nunca foi algo que a atraiu. Pelo contrário, ela nem conseguia levar aquilo a sério. Sempre tão prática e de humor ácido, ela adorava debochar das teorias que ele inventava. Quando ele estava relatando alguma de suas hipóteses ela esperava a primeira pausa para a respiração e cortava, cheia de sarcasmo: “Mas você acredita mesmo no que está dizendo?”.

Tremendamente implicante, ela era a descrição perfeita do ditado “quem desdenha quer comprar” e nem se dava conta disso. Acreditando estar se fortalecendo ao diminuir o marido, ela estava certa de que assim se consolidaria entre eles e para os outros como a pessoa que lidera o casal. Toda vez que podia, fazia questão de anunciar para todos: “não suporto as teorias dele”.

Já ele, egocêntrico e condescendente com o que classificava como imaturidade dela, ignorava as amolações. Preferia pensar em teorias. Afinal, não apreciava nem um pouco a idéia de não ter opinião a respeito de alguma coisa. O vazio, para ele, era penoso, aflitivo, mortal. Possivelmente era por isso ele lidava tão mal com o silêncio. Gostava de conversar, mais que isso, de expor seus pontos de vista. Porque, para ele, sempre havia algo de inteligente que ainda não havia sido dito a respeito de qualquer assunto.

Com o tempo, essa relação foi se estressando. A postura dominadora-autoritária dela foi sobrepujando a vontade dele de falar, de tentar se exibir. Ele foi murchando, diminuindo. E ela, inconscientemente talvez, foi pisando mais forte, querendo que ele ficasse ainda menor. Depois de um tempo ele finalmente já não se sentia a vontade para teorizar, mesmo quando ela não estava por perto. Pouco tinha vontade até mesmo de falar com ela, de estar em sua presença, ficava sempre mudo, macambúzio.

Ele já era capaz de ficar dias, semanas, em silêncio quando uma tarde, sem rodeios, sem estranheza, sem qualquer introdução, ela lhe dirigiu secamente a palavra: “Estou com dificuldades nisso. Nem a terapia está me ajudando. Só você sabe como é que as coisas aconteceram, gostaria de escutar a sua opinião. Você pode me dizer por que isso acontece? Qual é a sua teoria a respeito?”.

Totalmente surpreso, ele demorou a entender que ela queria mesmo a sua opinião. Não entendia como ela podia estar tão insegura com um assunto tão boçal. Para ele, aquilo era tão sem importância que mesmo na sua época mais produtiva, de mil e uma teorias, ele jamais pensara naquele assunto. E agora que ele se policiava para manter a mente em branco, ela vinha com essa questão. Sem contar que tratava tudo com tanta naturalidade que o espantava ainda mais.

Diante disso tudo, ele respondeu: “Não sei. Não tenho nenhuma opinião a esse respeito”.

Ela não esperava por aquilo. Nervosa, queria se apegar a qualquer coisa, mesmo que fosse uma das mais absurdas teorias de seu marido para ter um fio de esperanças. E com aquela resposta ele parecia não estar nem um pouco preocupado com o seu sofrimento. Como ele podia ser tão insensível? Era inacreditável que ele não tivesse pelo menos dez minutos de opinião e teorias a respeito. Só poderia ser uma má vontade mesquinha, a intenção de vê-la sofrer, a raiva e o despeito, que o levavam a falar aquilo. Ela não concebia a idéia dele realmente não ter uma opinião a dar.

Naquele dia, mesmo sem resolver o problema que tanto a afligia, ela tomou uma resolução. O abandonaria. Não podia viver com alguém em quem não confiasse, com quem não pudesse dividir um problema.

Anos depois, relembrando aquela tarde e refletindo, ela pensou que talvez até gostasse de ouvir as teorias dele de vez em quando. Já ele, continuou sua vida sozinho, mas não sem teorias. Depois de um mês solteiro voltou a formular suas conjecturas. E a primeira delas foi: “é muito difícil não ser como as pessoas imaginam que você é”.



Escrito por edusenise às 14h19
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