OBSESSÃO
Após
pouco mais de um ano o livro estava quase pronto. Eu, que sempre fui um escritor
amador, sem muitos recursos, mas esforçado, tinha feito o melhor que podia. Eu,
que sempre escrevi por prazer, pelo exercício e para meu autoconhecimento,
estava prestes a publicar o meu romance. E eu realmente achava que ele não tinha
ficado mau. Tinha orgulho da minha obra. Acreditava que ela poderia surpreender
aos meus amigos e alunos, assim como tinha surpreendido a mim mesmo.
Negociando
com a editora qual seria a melhor data para o seu lançamento, optamos por adiar
sua chegada em três meses. Tudo para não concorrer com o mais novo livro de
Amândio Abaeté, principal escritor da casa, que por sinal, é o meu autor
preferido. Tenho por ele uma enorme admiração, conheço toda a sua bibliografia,
tenho alguns de seus livros autografados, li diversas reportagens sobre ele,
enfim, me gabo por saber quase tudo a seu respeito.
Assim,
era prudente que eu, ciente das minhas limitações, não me impusesse uma
competição por espaço com ele, homem consagrado, nas poucas colunas e editorias
de Literatura que existem. Seria até bom ver como o mercado – que andava pouco
aquecido – receberia a sua publicação. Sonhava em tomar carona em seu sucesso.
Obviamente
fui um dos primeiros a chegar à noite de autógrafos preparada para o lançamento
de seu livro. Além do dever de ofício que seria prestigiar um colega, para mim
era um enorme prazer estar ali, comprando seu romance em primeira
mão.
Em
casa, já no início da madrugada, analisei minuciosamente seu livro. Era evidente
o cuidado da editora com os mínimos detalhes, o tipo de capa, as páginas, os
grampos, era mesmo lindo. Comecei a lê-lo e, como de hábito, me deliciei com a
narrativa; tão fluida, convidativa, com seus personagens tão reais densos, seu
humor tão inteligente. Era um romance maravilhoso.
No dia seguinte estava na última parte da leitura. E neste momento
da narrativa surgia uma nova personagem na sua história. Uma mulher que queria
ser como a personagem principal da trama, com traços psicóticos muito bem
planejados, uma personagem obsessiva ao extremo, que nem se dava conta do enorme
tempo que gastava pensando na vida da outra.
Neste capítulo, quando entendi melhor aquela personagem, deixei de
gostar do livro. Continuei a leitura sem qualquer emoção, até fazendo uma
avaliação mais crítica de toda a sua obra. Notei seus defeitos e refleti a
respeito das coisas que eu faria diferente. É, acho que ele não era tão bom
quanto eu pensava.
Escrito por edusenise às 11h58
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