BOM SENSO
A mulher mais bonita do bairro era viúva. Tinha trinta e cinco anos e um filho de quatorze. Vivia das rendas de seu falecido marido e, a despeito de sua beleza, consagrava-se com a educação do rebento. Amava-o cegamente. E amava com um amor tão intenso que eu até me arrisco a dizer que era amor demais; prejudicial a ele e a ela. Afinal, nutria tantos temores, tantos pesares que a cada vez que ele adoecia ou se machucava, ela parecia sofrer mais do que ele.
Durante a alfabetização do menino ela também estudava, queria ajudá-lo a fazer seus exercícios. Protegia-o tanto que chegava a adular os colegas de classe de seu filho para evitar que eles zombassem dele, chamando-o de "filhinho da mamãe". Mal sabia ela que aquilo não era necessário.
O menino era de caráter forte e personalidade rude, teimoso, não gostava de demonstrações de afeto, tinha um verdadeiro desgosto por afagos públicos. De humor inconstante, destacava-se pela sua audácia, que sempre o fazia aparentar mais idade do que tinha normalmente. Ainda sobre ele, não era mau aluno e, diferentemente de seus colegas da escola católica, era muito crítico e empreendedor.
Sua personalidade agradava sobretudo aos professores. As professoras, de modo geral mais afáveis, notavam sua capacidade intelectual, só que não apreciavam seu jeito orgulhoso que em vários casos beirava o desdém e a insubordinação.
Em casa, com suas atitudes sempre tomadas de dignidade, sabia administrar o despotismo de sua mãe. Cheio de amor-próprio, ele adorava aprontar alguma pequena travessura, quando menos se esperava. Seus alvos preferidos eram os criados, a faxineira e o jardineiro, que era um "faz tudo" da casa.
Suas gozações quase sempre tinham como objetivo demonstrar seus conhecimentos a respeito de algum tema. Orgulhoso, queria menos subjugar os outros do que demonstrar como era culto e amadurecido.
Para aquela mãe tão dedicada era quase impossível identificar todas as nuances da personalidade do filho. A ela o que importava era o seu bem estar e, claro, o seu amor. E era isso o que mais a fazia sofrer. Para ela era insuportável a idéia de que seu filho a amava pouco. Afina, ele sempre parecia frio em relação a tudo que a envolvia. Certa vez, em um momento de fraqueza, entre lágrimas, ela chegou a censurá-lo por isso. E devido àquela repreensão, este momento tão cotidiano numa relação entre mãe e filho acabou sendo muito importante para ambos.
Vaidoso, o rapazinho não gostou nada daquilo. Desde então, quanto mais efusões de alegria cobravam dele, mais ele se fechava. E isso nem era um movimento racional, tudo provinha de sua personalidade, do seu caráter aguerrido. Pois para ele era muito óbvio que ele amava a sua mãe, só não gostava daqueles exageros e daqueles "mimos de meninas", como ele falava.
E enquanto ela sofria, sem amigos, mas com diversos pretendentes e aduladores, ele, conquistava a primeira namorada. Para ela essa época foi especialmente difícil. Pois continuava a dedicar todo o seu tempo a ele e, agora, tinha uma concorrente. Não, na verdade não havia uma concorrência, era uma declarada preferência pela outra.
Para seu enorme desgosto, a namorada de seu filho era linda. Tinha 17 anos, e era tão ou mais bonita do que ela na mesma idade. E com uma diferença crucial, ela era de uma beleza totalmente diferente da sua, os traços, a cor de pele, o cabelo, tudo era diferente e belo.

Seu filho costumava encontrá-la à tarde, depois da aula, no clube em que se conheceram. Ficavam juntos até a noite. Às vezes ela ia até lá para vê-los, escondida. Quase sempre se pegava invejando a atenção e o carinho que ele dispensava a ela. Um dia chegou a segui-la para ver onde ela morava, ver seus pais e sua família.
Em casa, tentava convencer o seu filho de que ainda não era época para namoro, que ele deveria se concentrar nos estudos e que aquela não era uma boa menina. Isso só o deixava com mais raiva e o afastava ainda mais da mãe. Seus argumentos eram sempre patéticos e a distância entre eles só crescia.
Vendo seu filho se afastar, ela tomou uma atitude desesperada, foi até a sua namorada avisar que não aprovava o relacionamento. Tentou argumentar que a diferença de idade entre eles era significativa, que ela achava que seu filho merecia alguém melhor, chegou a insinuar que ela estaria se aproveitando dele.
A menina ouviu a tudo impassível, quase com superioridade; isso foi irritando-a ainda mais. Então, quando já se descontrolava, falava alto e baixava o nível do discurso, a moça finalmente a interrompeu. Disse que gostaria de fazer uma pergunta. Ela respirou fundo, com as têmporas saltadas e tremendo de raiva, calou-se. Foi quando a garota questionou:
- O que resta a uma mãe quando ela perde o bom senso?