LIDERANÇA
Naquela pequena ilha, perdida no meio do oceano, reinava a anarquia. Cinco clans rivais viviam em permanente estado de guerra, pilhando as riquezas uns dos outros e assassinando os líderes adversários. E isso acontecia sistematicamente, desde a chegada do homem àquele espaço.
Lá não havia recursos disponíveis para todos e poucos não se dispunham a trabalhar para o sustento de muitos, preferindo a utilização da força. Assim, a mesquinharia e a ganância logo trouxeram a escassez e, com ela, as violentas disputas pela administração hegemônica dos poucos recursos que restavam.
Quando as batalhas estavam chegando ao ápice e mais da metade da população da ilha havia sido dizimada, os chefes opositores começaram a cogitar novas maneiras de dar fim ao conflito. Para eles, a única forma de acabar com os assassinatos, roubos e traições era criar um poder único, uma administração reconhecida por todos os clans. Uma força que teria autoridade para gerir a tudo e a todos.

Sentaram pra conversar. Primeiro cogitou-se votar, mas havia clans mais numerosos do que outros e não necessariamente mais fortes. Depois se cogitou uma luta entre o melhor guerreiro de cada clan, mas essa proposta não agradava aos clans mais populosos. Alguns tentaram impor rituais religiosos que apontariam o clan dominante, mas como cada um adorava a deuses diferentes, queriam que o ritual fosse conduzido pelo seu chefe religioso. O clan que detinha a maior parte do território tentou puxar para si a supremacia, assim como fez o clan com a maior parte de terras produtivas.
O impasse foi geral até que surgiu a idéia de uma liderança com poder transitório. Aquele tribunal serviria como um grupo de notáveis e no início de cada verão o poder se alternaria entre membros de um dos grupos.
O primeiro governante escolhido foi o que sugeriu a idéia do rodízio de poder. Ele era de um clan pequeno, de uns poucos soldados fortes, com poucas terras; algumas até bem produtivas, férteis e com saídas para o lado leste da ilha, o melhor para a pesca. Mas, em geral, a natureza de seus homens não era belicosa, ele mesmo chegara ao poder por aclamação, devido à indicação do antigo líder do clan. Seu estilo era radicalmente oposto ao da maioria dos outros líderes, exercendo uma respeitada autoridade entre os lavradores e pescadores, mas sendo pouco reconhecido entre os poucos guerreiros.
Ao assumir o poder, sua primeira medida foi criar um espaço comum a todos os clans, para a administração geral, no centro da ilha. Ali passaria a ser a residência do governante durante o seu mandato de um ano. Temendo golpes, ele mandou trazer de sua tribo seus guardas mais fortes e confiáveis para protegê-lo e liderar o seu exército.
Essa resolução logo desagradou à tribo que ocupava o meio da ilha e perdeu boas terras para a construção da casa do líder. Essa tribo passou a reivindicar terras que dessem acesso ao mar do leste, para que seus pescadores pudessem trazer peixes tão bons quanto os do pequeno clan de onde vinha o líder da ilha. Além disso, eles queriam ocupação para os seus guerreiros, já que estes haviam sido destituídos de sua função original - guerrear contra os outros clans - e nem sequer podiam atuar como defensores de seu próprio território, já que as chefias da guarda foram importadas pelo novo governante.
Antes de decidir a respeito dessas questões, o líder da ilha foi surpreendido por um novo acontecimento. Devido às atribuições de seu cargo ele fora indicado para ser o juiz de um dos mais velhos e sangrentos confrontos da região. Dois clans reivindicavam a posse de uma gruta que os religiosos de ambas as tribos acreditavam ser fundamental para a sua fé. Um espaço tremendamente necessário ao culto de crenças diferentes.

Sem ter qualquer informação, afinidade ou simpatia com a religiosidade de ambos os clans envolvidos, para o líder era muito penoso decidir. Afinal, a contenda dizia respeito a dois dos grupos mais fortes, com poderosos líderes religiosos, detentores do maior número de fiéis entre todas as religiões lá professadas. Esse detalhe, inclusive, tornava ambos os clans prósperos, já que seus seguidores eram tremendamente trabalhadores e generosos entre si, também nunca hesitando em pegar em armas para defender suas crenças.
Com tantos impasses para determinar soluções, ele – que definitivamente não queria ser autoritário – teve a idéia de fazer um conselho. Acreditava que dessa forma poderia dividir as responsabilidades, cedendo e agradando um pouco a cada um dos grupos. Assim convidou os quatro chefes de outros clans para uma reunião. Precisavam deliberar a respeito dos assuntos urgentes. E ainda havia muita coisa por acontecer, já que o inverno chegaria em breve e, assim como nos anos de guerra, as provisões não eram suficientes.
Reunir pela segunda vez esse grupo de chefes não foi tarefa fácil, cada um deles tinha rixas com o outro e cada um contava uma versão diferente para os mesmos problemas. Enfraquecido por sua falta de comando e demora nas decisões, o líder da ilha já não era respeitado por alguns dos clans.
Faltando poucas semanas para o inverno, com exceção da casa do líder, no centro da ilha, nada havia sido feito, nenhuma decisão importante havia sido tomada. Os clans não estavam mais em guerra, mas continuavam as animosidades e questões pendentes. E com os impasses produzidos na reunião do conselho, nenhuma questão era resolvida.
Impaciente, o líder do mais forte dos clans articulava a derrubada do líder da ilha. Receosos de que ele poderia se transformar em um tirano e conquistar o poder com poucos esforços, já que ele era o único a manter os seus exércitos mobilizados, outros chefes tramaram o seu assassinato, seria a morte de um para a salvação de todos. Ciente de tudo isso e receando pela sua vida, o líder da ilha abdicou do poder.
Não havia condição política ou instituição que garantisse a eleição de um novo líder. Todos os clans voltaram a guerrear uns com os outros até se dizimarem.
Escrito por edusenise às 11h45
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