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Desamores
 


Lembranças (O Almoço)

 

Eu adorava sair para almoçar com ela. Como trabalhávamos juntos, depois de comer, sempre ficávamos de papo, perdíamos a hora e tínhamos que compensar o depois do expediente. Isso era maravilhoso, mesmo sem nunca ter rolado nada, achava sensacional ficar com ela naquele escritório, sem ninguém por perto.

 

Mas este não era o único motivo pelo qual eu gostava de almoçar com ela. Achava lindo quando, antes de irmos para o restaurante, ela parava no banheiro e voltava de lá com brilho nos lábios. Lembro que comíamos preferencialmente nos lugares mais distantes, os que nos impusessem as maiores caminhadas. Nunca soube bem o motivo. Agora eu penso como aquelas andanças eram ótimas.

 

Eu poderia ficar horas apenas assistindo ela caminhar, às vezes demorava a atravessar as ruas só para que ela fosse na minha frente e eu pudesse vê-la marchando, mirava o movimento das suas pernas naquela saia branca. O rebolado tão leve, na medida certa, as curvas tão convidativas, sensacionais.

 

Os papos sempre fluíam fácil. Conversávamos sobre tudo, política, cinema, a vida, futilidades. E sempre era agradável. Era surpreendente a maneira como concordávamos nas questões mais importantes; não me recordo de nada relevante em que tenhamos opiniões muito diferentes.

 

Eu reparava em tudo nela, o jeito de se vestir, de sorrir com elegância, sem abrir a boca e mostrando apenas os dentes, a maneira como ela era decidida, afirmativa, e ao mesmo tempo tão feminina. Aquela sua pose me encantava, tinha certeza que era só fachada, que ela queria mesmo era alguém para cuidar dela.

 

Também gostava da maneira como ela comia. Seu prato era sempre bonito, colorido, com as várias texturas dos diferentes tipos de salada que ela tanto gostava.

 

Hoje é engraçado pensar nesses almoços, recordar essas coisas, reviver esses sentimentos. Tenho certeza que se ela visse esse texto saberia exatamente do que eu estou falando. Mas nós nunca conversamos sobre isso. Ela sequer sabe que foi olhando para o prato dela que eu me interessei por comer feijão fradinho.


 



Escrito por edusenise às 19h50
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Mora mal

 

A fachada era mal cuidada, mas não chegava a assustar, ruim mesmo era o interior do prédio. A recepção só podia ser chamada por este nome porque ficava a frente de uma parede com um porta-chaves. Nela também havia e uma placa, velha e com o til faltando: Recepçao. A senhora que me atendeu até era atenciosa, mas o seu jeito suado apesar do frio me chamou mais atenção do que as poucas palavras de boas vindas e explicações que ela me deu.

 

Enquanto ela dizia alguma coisa, me virei para olhar uma desbotada mesa de sinuca que jazia no quintal. Parecia mais um objeto de ferro velho do que uma mesa de verdade. Talvez, com boa vontade e uma reforma, ela pudesse se transformar num desses excêntricos objetos de decoração.

 

Dei de ombros. Ainda tentava me manter animado. Peguei minha mala e segui pelos corredores. Eles tinham a pintura descascando, pedaços de reboco aparecendo levavam até os quartos do segundo andar. Olhando pelos basculantes sujos via ventiladores com hélices quebradas e o teto com infiltrações.

 

Em frente aquele que seria o meu quarto, sorri sozinho ao olhar para a porta, era o alojamento 14, meu número da sorte. Sendo otimista, aquele podia ser um bom presságio. O quarto poderia ser minimamente confortável. Não era. O piso e as luminárias eram como as de uma sala de aula de escola pública, dentro dele, havia apenas uma cama nas dimensões de uma maca. Ainda tive que fazer uma expressão de felicidade ao ver um armário de duas portas, empenado, ser trazido para o meu quarto pelo motorista da casa. Sorrindo, ele disse que era um presentinho para mim, já que eu vinha de fora e não tinha onde colocar as minhas roupas.

 

Não tive ânimo para arrumar nada naquela madrugada, sabia que precisava dormir logo, o expediente começaria cedo no dia seguinte. Depois de apenas três horas de sono o despertador tocou. Corri para o chuveiro, que não esquentava, e saí para trabalhar com a felicidade de quem se livra de um problema. Assim, apenas na noite do dia seguinte pude ter uma real impressão da minha moradia.

 

Cheguei tarde do trabalho, apesar do cansaço, fiz exercícios no quarto. Quando fazia abdominais, deitado no chão, achei estar escutando o som de uma TV. Não era possível, ninguém ali teria uma TV no quarto. Depois do banho deitei-me na minha maca-cama. Estava frio, precisava me encolher para que meus pés não ficassem de fora da manta que me cobria. Dormi acocorado e, não sabia porque, sonhei com uma princesa. No sonho, escutava sua voz, ela cantava, falava com outras pessoas, sorria. Ela era linda, eu sabia que era, mas eu não a via.

 

No terceiro dia eu já estava me acostumando com as privações do lugar. Havia conseguido até uma vela para colocar na cabeceira da minha cama e ler um pouco. Era tarde quando eu fiz isso pela primeira vez. Então reparei que no quarto 22 também havia luz. Mas não uma luz fraca, como a minha, ela era forte, tinha variações de intensidade típicas de uma tela de TV. Quase quebrei o pescoço tentando descobrir o que emitia aquela luz, mas depois da viagem e de duas noites quase insones, fui vencido pelo cansaço.

 

O meu dia seguinte foi o pior de todos, não conseguia me concentrar, queria que o trabalho acabasse logo para poder voltar logo para o quarto. Tentando adivinhar qual seria o melhor ângulo para ver a luz, arrastei a maca-cama para perto da janela e sentei sobre a cabeceira, ao lado da minha vela. Fiquei olhando fixamente para o quarto 22 e esperando que a luz se acendesse. Mais de duas horas passaram e nada.

 

Era uma quarta-feira, dia de rodada do campeonato, e como eu gostaria de ver um bom jogo de futebol na TV. No entanto, a luz não se ascendeu, parecia que não havia ninguém no quarto. Nada de princesa, nada de TV, e muito menos assistir futebol.

 

Depois de quatro semanas eu parei de sentir falta da TV. Também questionava a importância do barbeador, de cobertores sem furos e da louça lavada. Tinha me acostumado ao lugar e a ausência de amigos. Não travava relação com ninguém, foi quando parei de fazer exercícios e nunca mais procurei a luz do quarto 22.



Escrito por edusenise às 19h20
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