O Campeão
Minha história é como uma profunda caverna de fracassos escavada com a fé e a credulidade de que o trabalho duro em algum momento seria recompensado. Ou seja, é o conto de um idiota. Acreditei que as pequenas pedras preciosas que descobri seriam o começo do meu sucesso. Na realidade, elas eram toda a glória que eu teria.
Durante muitos anos meus sucintos momentos de notoriedade enganaram-me como um ouro de tolo ilude ao garimpeiro inexperiente. Demorei a notar que nunca seria um campeão. Jamais aprendi a lidar com a minha mediocridade. Não percebia que justamente por não me destacar poderia ser eximido de cobranças e responsabilidades.
Para completar o meu calvário quis o destino que eu fosse morar neste apartamento, igual a centenas de outros, todos distribuídos por 25 prédios praticamente idênticos. E esta gigantesca “vila”, com capacidade para 8.240 pessoas, acabou se transformando no perfeito abrigo para o que restou de minha vida. Uma vez que entre tantos outros, ser apenas mais um é tudo que posso fazer aqui.
Este lugar, perdido em meio a Avenida Ayrton Senna, não é mais notícia. Ao menos não serei importunado. Os moradores pouco se falam, as amizades ainda estão se estreitando. Afinal, todos são novos por aqui. A única coisa que me espanta é que apesar da infra-estrutura, as crianças pouco descem para brincar.

Saudades da minha infância em Campo Grande. Como é bom lembrar da molecada na rua, jogando bola, andando de bicicleta e correndo atrás das pipas. Muitas foram as tardes que eu dediquei a ficar de olhando o céu e, em um segundo, sair em disparada para mais uma das intermináveis corridas pela Estrada do Cabuçu, tentando chegar na “pipa avoada” antes dos outros.
Às vezes eu conseguia. E, de peito cheio, ostentava aquele troféu feito de gravetos, papel e linha, que antes de tocar no solo já estava presa em minha vara de bambu. Ser o primeiro – em qualquer tipo de competição – é algo que me fascina desde esta época. Mas a verdade é que poucas vezes eu conseguia. Freqüentemente eu era o quarto ou quinto, não só na corrida atrás das pipas, mas em quase tudo.
E apesar de minha latente e indisfarçável mediocridade, não tenho autopiedade. Até creio que coleciono pelo menos duas importantes virtudes. Sempre fui honesto e nunca esmoreci. Meu senso de competição é grande, vencer burlando as regras jamais teria valor para mim.
Assim, seguindo estritamente as regras, meu castelo de sonhos foi se esfacelando. E o pior disso tudo era ver que a cada nova derrocada, o meu esforço e diligência eram reconhecidos. Eu notava nos rostos de meus amigos o desânimo com que eram proferidas frases como: “Mas que falta de sorte a sua”, a cada insucesso meu. Eles estavam mais cansados de me consolar do que eu de tentar.
Eu queria ter um ar mais blasé, ser menos transparente, fazer as pessoas crerem que, como um bom esportista, eu lido bem com a derrota. Nunca consegui. De qualquer forma, para mim sempre foi impossível acreditar que “o importante é competir”. Estou certo de que esta máxima foi inventada por um eterno perdedor conformado, ou por um vencedor para justificar a presença do perdedor na competição.
Por isso eu nunca tento transformar meus fracassos em triunfos. Ou seja, não existe ver o lado bom das coisas quando você é o derrotado. Ora, o lado bom é sempre o do vencedor! É claro que eu aceito a idéia de aprender com os erros. Porém, é ridículo afirmar que podemos aprender mais nas derrotas do que nas vitórias. Caso isso fosse verdade, hoje, eu já saberia tudo sobre ganhar.
Às vezes penso que gostaria de nascer novamente. Começar do zero em outra cidade, em outra época. Mas queria, pelo menos uma vez na vida, ser um vencedor. Este ano foi especialmente difícil quanto a isso, sonhei com vitórias que nunca tive – sobretudo agora que passei a beber – diariamente.
Então, eu, cujo pior vício era desembarcar pela esquerda na estação do metrô de Botafogo, finalmente desisti. Hoje a bebida presenteou-me com toda espécie de humilhações. Entre um trago e outro, perdi minha condição atlética, moral e financeira. Agora o pouco que me resta cabe neste quarto. Aqui me divido entre as procuras na caixa de meu bom passado, com recortes de jornal, estas poucas medalhas e meu mini-bar, ou caixa de mau futuro, onde guardo minhas bebidas.
31/12/2007 – 22h14
Ex-atleta passa bem após bater recorde de intoxicação alcoólica
Passa bem o ex-nadador Paulo Magalhães, encontrado em coma alcoólico por vizinhos, em seu próprio quarto, por volta das 20 horas da noite de reveillon. Levado às pressas para o hospital Miguel Couto, onde recebeu várias ampolas de glicose, Paulo não corre mais risco de morte.
No entanto, os médicos que fizeram exames no ex-atleta afirmam terem constatado a presença de 9,17 miligramas por mil de álcool no sangue. Esta quantidade seria um novo recorde mundial de intoxicação por álcool. Os números são tão incomuns que os testes foram feitos várias vezes para confirmá-los. Não há registro de caso semelhante no mundo.
“Concentrações acima de 5,5 miligramas são altas o suficiente para considerar um organismo está em estado de grave intoxicação, inclusive com possibilidade de morte”, afirma Roberta Oliveira, chefe da clínica de toxicologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto.
Parentes afirmam que Paulo, de 26 anos, estava em depressão desde que abandonou a natação por não ter obtido o índice para disputar os Jogos Pan-Americanos de 2007. Recentemente ele tinha se mudado para o recém-inaugurado condomínio Vila dos Campeões, em Jacarepaguá, construído para abrigar os atletas que disputaram o Pan-Americano durante o Pan.