Covardia
Ele não precisava continuar morando no subúrbio, mas, depois de anos, continuava na mesma casa. Naquele terreno também ficava a residência de sua avó, onde passou a infância. Ao chegar do trabalho, eventualmente passava por lá, permitia-se alguns minutos olhando as imagens dos santos, o papel de parede manchado e fora de moda, a venerável geladeira, mais velha do que ele, e que mais parecia um modelo de caixa forte.
As vezes afugentava um ou outro gato que vinha averiguar se haviam voltado a colocar comida na tigela do quintal. Não os perdoava por continuarem a visitar aquele lugar depois da morte da dona da casa. Permitia que eles continuassem a aparecer, só porque, mal ou bem, eles o ajudavam a lembrar do tempo em que, sem qualquer pudor, ele ia até lá, deitava-se no confortável sofá e dizia para ela:
- Vim aqui para matar as suas saudades e para que você faça festa para mim.
Ele parecia não se importar realmente com a primeira parte da frase, ela parecia não se importar com isso. Então sentava ao seu lado, colocava a cabeça dele sobre seu colo e lhe fazia um cafuné que lhe apaziguava as raivas e angústias sem motivo.
A vida inteira foi assim, a atenção que ele recebia era diretamente ligada ao seu interesse pelo mundo. E só agora se dava conta disso. Quando era tarde demais. A essa altura, muitos já haviam lhe voltado às costas, enfastiados da sua arrogância e do sarcasmo ácido e desdenhoso que cristalizavam a timidez e o medo com que contemplava o mundo.

Sua visão distorcida chegava a ser cômica em alguns casos, sobretudo quando questionava os amigos (tão poucos e tão menos fiéis do que ele pensava), como eles podiam se reunir, sem divertir, sem ele. Seu egocentrismo se manifestava até mesmo nos romances e poemas que ele nunca escrevia, mas que na sua concepção, eram muito mais densos e interessantes que os que ele lia.
Só agora ela se dava conta, desde a adolescência as únicas alterações significativas em sua vida consistiam em duas ou três mortes de pessoas que nutriam por ele um carinho que se sobrepunha a sua arrogância e egoísmo. Esses sentimentos mesquinhos direcionavam sua vida.
Caminhando pela casa de sua avó contemplava a solidão. Sentado no sofá onde se deitava, quando jovem, visitava o sótão de si mesmo. E, como de hábito, ao manipular suas lembranças, tentava ser complacente com os próprios erros.
Horas depois, voltou para sua casa e dessa vez sentado na sua sala, pegou suas anotações e começou a escrever. Para ele, aquela ainda era uma vergonha quase secreta, uma obsessão eternamente adiada. Mas, naquele momento, determinado, fez poesias por quase duas horas, sem pensar em mais nada. Até que, num estalo, perdeu a concentração e releu tudo.
Ao terminar, bufou, estalou a boca e foi até a cozinha beber água. Ao voltar, organizou as anotações e levo-as até o armário, guardando-as com a minúcia típica de quem tão cedo não voltará a tocar naqueles documentos. Foi quando, falando sozinho, talvez para espantar seu isolamento, talvez para se convencer melhor, disse:
- Enquanto não fizer isso posso acreditar que se o fizer, farei bem.
Escrito por edusenise às 06h10
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