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Desamores
 


A grama do vizinho

 

Nós trabalhávamos juntos. Ela era competente, simpática e certinha, às vezes até careta demais. Eu era um profissional medíocre, pouco importante para a empresa, porém, popular entre os colegas, fazia algum sucesso com as mulheres, o que me permitia ter uma interessante fama de galinha. Ela tinha namorado.

 

Em um evento do trabalho a notei me olhando pela primeira vez. Gostei. Era uma festa, eu estava saindo com uma menina de outro setor e andava meio enjoado, seria interessante investigar se aquela simpática-bem-sucedida-certinha estava mesmo se interessando por mim. A partir daquele momento passei a reparar mais nela.

 

Dois ou três dias depois, arrumei um pretexto para lhe mandar um e-mail. A mensagem foi prontamente respondida, com uma pressa que não era necessária ao assunto e um afeto que não me parecia muito comum para a relação de trabalho. Bom, ela tinha namorado, eu até conhecia o cara, ele trabalhava na empresa. A bem da verdade, ele conseguia ser mais irrelevante do que eu, vivia a margem dela. Assim, deixei de me importar com ele.

 

Naquela semana e nos dias seguintes passei a andar mais pelo corredor da sala dela, queria receber seus sorrisos. Confesso que esperava notar seu nervosismo ao me olhar toda vez que saia para almoçar de mãos dadas com o namorado. Ela estava interessada em mim, era evidente. E se eu precisasse de alguma confirmação, tudo ficou mais óbvio quando ela tomou a iniciativa de me mandar um e-mail. Inventou uma dúvida, uma questão para me procurar. Excelente.


 

Agora eu precisava montar uma ocasião, criar uma oportunidade para consumar o fato. Ela me parecia metida a certinha demais para cornear o namorado de caso pensado, por mais que ela quisesse, não bastaria que eu simplesmente a chamasse para sair.

 

Aproveitei uma amiga em comum para servir de ponte entre ela e eu. Marcamos um chope numa quinta-feira. Um happy hour despretensioso para todos os outros, mas muitíssimo interessante para ela e para mim. Sem que precisássemos combinar nada, para mim estava subentendido por nós dois que daquele dia não passaria. E não passou.

 

Depois de umas duas horas de bar ela atendeu o celular. Era o namorado. Ela o dispensou em poucos minutos, pelo que eu entendi pareceu dizer que estavam apenas as amigas. Bom, era uma mentira bem fácil de ser desmascarada, mas como diz o ditado “ema, ema, ema, cada um com seus...” bebi mais uns dois ou três chopes, no máximo, até ela se aproximar. Sentou-se ao meu lado para um papo furado.

 

Evidentemente bêbada, evidentemente nervosa, evidentemente me querendo. Toquei sua perna por debaixo da mesa, ela pareceu gostar. Olhei-a nos olhos e perguntei se ela não estava cansada, se não preferia que eu a levasse em casa. Como eu previa, ela aceitou na mesma hora.

 

Já no estacionamento nos pegamos. E, nossa, foi bom! Ela beijava bem, tinha atitude. Desde aquele dia nós voltamos a nos encontrar outras vezes. Sempre às escondidas, ela continuava namorando e eu não me importava. Até preferia que fosse assim.

 

Uns três ou quatro meses depois ela terminou. Nunca perguntei o motivo. Nessa época percebi que ela tentou se aproximar mais, fez questão de me dizer que algumas das amigas dela já sabiam que nós saíamos juntos. Eu, que até então estava me divertindo, não achei ruim, saímos mais vezes, nos encontramos em festas, algumas até com pessoas do trabalho.

 

Logo o ex dela ficou sabendo. Bancou aquela atitude de “não me importo”, mas era evidente o seu desconforto. Eu, de minha parte, não tava nem ligando mesmo. O problema é que menos de dois meses depois eu enjoei dela. Já tava saindo com outra, que até a conhecia. Assim, gradativamente fomos nos afastando. Sem nunca terminar o relacionamento que jamais oficializamos.

 

Depois de um tempo, depois d’eu enjoar de mais umas três, vez por outra eu ou ela nos mandávamos e-mails perguntando como iam as coisas, etc. Eu queria saber se ela ainda estava interessada em um sexo casual; ela sempre parecia querer um pouco mais.

 

Seguimos nos encontrando sem regularidade, por quase dois anos, nem trabalhávamos mais na mesma empresa, mas de tempos em tempos nos víamos, até que um dia ela respondeu um e-mail meu dizendo que estava namorando.

 

Respondi a mensagem fazendo piada, afinal, ela namorar nunca foi impeditivo para nos vermos. Ela, contrariando as minhas expectativas, ficou ofendida e não deu seqüência a conversa. Dias depois insisti em procurá-la, me fiz de arrependido, disse que a brincadeirinha havia sido infeliz e fiquei atento a sua reação. Novamente ela foi seca. Aquilo mexeu comigo.

 

No aniversário de um amigo em comum, tinha certeza que a encontraria. Ela foi com o novo namorado. Era até cômico como ele era parecido com o antigo. Talvez até mais feio, com menos postura, menos interessante. Não entendi o que ela fazia com ele. Nesse dia banquei o simpático e até conversei com o casal. Ele realmente era um mané, chato e tímido demais. Ela, desconfortável, rapidamente arrumou um jeito deles se desvencilharem de mim.

 

Pior que depois daquele dia fiquei com ainda mais vontade de vê-la. Achei-a mais bonita que antes, em melhor forma, mais arrumada. Desejei-a como nunca o fizera. Um dia não resisti e telefonei. Não tinha assunto, só disse que estava perto do trabalho dela e perguntei se ela topava almoçar comigo. Ela disse que não podia. Novamente foi seca e não me deu muita margem para gracinhas.

 

Tudo bem, eu sei quando é hora de um recuo estratégico. Mais cedo ou mais tarde o relacionamento dela vai ter uma crise, ela vai ficar mais receptiva, basta eu me manter presente, sondando como andam as coisas.



Escrito por edusenise às 20h08
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