Apenas palavras
A caminhada de volta para casa costumava distrair Evanildo. Durante o passeio, meditava sobre as mais variadas coisas e preparava seu espírito para outra noite de estudo. Viúvo, sem filhos e com poucos amigos, aos 62 anos, este senhor de aparência pacata mantinha suas aflições, anseios e dúvidas bem escondidas. Por isso apreciava sua rotina, ocupava-se nas horas solitárias e, à noite, esperava pelo pouco sono que tinha.
Durante toda a sua vida a memória prodigiosa facilitou o estudo de novas línguas. Há mais de quatro décadas dedicava-se aos idiomas mais diversos. O seu problema é que quanto mais estudava, mais se martirizava. Dia-a-dia, notava que jamais daria conta de aprender tudo que queria.
Ele era doutor em Letras, poliglota renomado, referência em linguagem. Em sua mente armazenara conhecimentos a respeito dos mais diferentes tipos e variações das línguas. Contudo, seu problema não era solucionado por estudos e dedicação. E essa constatação fazia suas esperanças arrefecerem.

Quando jovem, sempre reservado e discreto, queria dizer coisas e não sabia como falá-las; não conseguia transformar seus sentimentos em palavras. E foi justamente isso que o levou para o mundo das letras. E mesmo hoje, como um estudioso respeitado internacionalmente, acreditava não ter melhorado muito.
Suas meditações, observações e estudos lhe mostravam que quando “recebemos nossa língua” passamos a ter idéia do valor de cada palavra. E a partir deste momento cada uma delas jamais nos é indiferente. São sempre carregadas de sentimentos, idéias, conceitos. Falando de outro modo, ele percebia que os humanos nunca poderiam se pronunciar como robôs, já que, mesmo fora de qualquer contexto, para o homem, cada palavra tem uma conotação especial.
Ao mesmo tempo, a ambigüidade das frases lhe mostrava que as significações das coisas são dadas pelo hábito. Os pequenos mal entendidos das conversas cotidianas revelavam isso. Falando a este respeito, gostava de dar como exemplo: "se você vir um pedaço de boi sangrando em um cinema, tomará um susto, da mesma forma, você encara isso com total tranqüilidade quando vai ao açougue”.
A questão era que os fonemas e morfemas da Língua Portuguesa não eram suficientes para que ele transmitisse o que sentia. É verdade que o estudo das outras línguas havia ajudado na formulação das suas idéias, mas isto também não bastava. Seus sentimentos estavam aprisionados dentro de seu corpo. Isto o consumia.
A caminhada se aproximava do final, assim como a vida de Evanildo. Chegando em casa ele passaria mais uma noite estudando, mas jamais encontraria nas letras as respostas para a sua angústia.
Escrito por edusenise às 17h11
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