Superstição
Acordei atrasado. Pelo movimento da rua, são 6h30. O som dos ônibus começa a se intensificar, mas ainda não há o ruído das freadas, de quando o trânsito está mais cheio, com mais táxis na rua, pessoas indo para o metrô, pais levando filhos para a escola. O pior barulho só começa às oito, quando há também o estrondo das caixas de cerveja sendo descarregadas na distribuidora de bebidas que fica abaixo da minha janela.
É janeiro no Rio de Janeiro. Lá fora, 35 graus, e o dia mal começou. Aqui dentro, certamente está mais calor. O ventilador de teto não é páreo para o bafo quente que sobe do asfalto e entra pela velha janela do apartamento. A cama, dura e desconfortável, também não contribui em nada para que eu passe alguns minutos deitado depois de acordar.

Levanto molhado de suor e vou escovar os dentes, sempre faço isso antes de tomar banho, nessa hora também escuto o som do banheiro do apartamento de cima. Lá mora um velho rabugento. Pelo som, ele tem dificuldade em urinar, talvez tenha algum problema de próstata.
Depois de tão poucas horas de um sono tão mal dormido, o chuveiro me traz de volta a realidade. Gostaria que a água estivesse gelada, mas ela desce da caixa morna e pouco refrescante.
Enquanto passo a toalha pelas minhas costas, minhas têmporas já estão latejando, suadas novamente. Quando me visto, minhas costas também estão molhadas de suor.
Tento me botar a roupa rapidamente. A única camisa limpa e passada é a amarela, manchada na manga. Nossa, como eu fico mal de amarelo. Corro para o ponto de ônibus, chego a tempo de vê-lo passando do outro lado da rua, antes que eu pudesse pegá-lo. Agora serão quarenta minutos de espera. Numa cidade enorme como essa, um dos poucos ônibus que nunca passam tinha que ser justamente o que eu preciso.
No trabalho, o dia é exaustivo, mal tenho tempo de comer um sanduíche no meio da tarde, almoço, nem pensar. Para piorar, tomo um esporro sem sentido; devem ter me confundido com alguém, sei lá.
Saio tarde e perco a minha carona. Como já era de se esperar, agora chove, e forte. Logo a rua está alagada. Tento me equilibrar sobre o banco do ponto do ônibus, meus sapatos já ensopados, dificultam a tarefa.
Depois de quase duas horas de engarrafamento, chego em casa. Tiro a roupa e, triste, constato: tem dias que nem a minha cueca branca da sorte me ajuda.

Escrito por edusenise às 09h28
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