Fé
Quando eu era pequeno, tinha um amigo imaginário. Trocava muitas idéias com ele, sobretudo à noite, sozinho no meu quarto. Nunca fui recriminado por isso, até tenho lembranças dos meus pais me estimularem, talvez achassem bonitinho. Ruim é que com o tempo eu fui me acostumando a recorrer a esse amigo.
Depois percebi que eu ia crescendo, mas a idade dele se mantinha. Ele era bem mais velho, mais responsável, mais sensato e inteligente. Dessa forma, meu respeito por ele só aumentava enquanto ele ia se tornando mais participativo, mais presente em minha vida.
Por isso, mesmo sem nunca ter lhe dado um nome, eu o chamava mentalmente quando tinha problemas. É verdade que ele nunca me ajudou colocando a mão na massa, mas sempre me reconfortava, me ouvia, me ajudava a ter uma idéias.
Quase adolescente, descobri que várias outras pessoas também tinham amigos imaginários. Algumas tinham encontros sistemáticos com eles em um ou mais dias na semana. Desses, uns faziam questão de desenvolver densas cerimônias para os seus relacionamentos. Outros tinham contatos mais esporádicos, chamando-os apenas em momentos de crise.
Já adulto, tive minha primeira briga séria com o meu amigo imaginário. Passei por uma crise muito grave e ele não me ajudou. Por mais que eu lhe chamasse, perguntasse, pedisse, implorasse, ele não me acudiu. Por isso eu decidi romper relações com ele. Afinal, de que ele me serviria se não me daria apoio quando mais precisasse?
E assim vivi sem ele muito bem, durante anos. Confesso que até sentia algum prazer em debochar dos que insistiam em acreditar em seus amigos imateriais. Meu escárnio ajudava a expressar meu rancor por jamais ter me esquecido do episódio que me fez abdicar de meu amigo.
Eu fazia troça dos que acreditavam, mas também ia me adaptando a essa nova situação. Tinha que me controlar para não evocá-lo novamente nos maus momentos. Aos poucos eu tinha que me conscientizar que não havia mais uma relação a cultivar. Na maior parte do tempo isso não era difícil, sou orgulhoso o suficiente para não chamá-lo uma segunda vez e novamente ser ignorado.
Mas aos poucos um vazio foi tomando conta de mim. Sentia-me um pouco deprimido, incomodado pela credulidade que outros ainda tinham. Foi quando pensava a respeito disso que encontrei, por acaso, um conhecido. Ele havia estudado comigo na escola, onde todos conversavam com seus amigos imaginários. E admito que me incomodou muito o fato dele, depois de tantos anos, parecer tão sereno, tranqüilo de suas convicções e da sua relação com aquele ser intangível.
Quando falei para ele que tinha perdido a minha convicção, que não falava mais com meu amigo imaginário, ele respondeu: “Os ateus querem que deixemos de acreditar em Deus e não nos dão nada para acreditarmos em seu lugar”.
Escrito por edusenise às 22h54
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