Reunião (postura)
Cheguei para a reunião estrategicamente atrasado. Apenas cinco minutos, só o tempo de não ser o primeiro e também não fazer com que os outros esperassem. Como chefe de setor, sabia que não devia fazer isso com os executivos, mas esse foi o único recurso que tive para burlar a opressão que eu sentia ao dividir a sala com eles naquela circunstância. Duas das três pessoas que participariam do encontro já estavam lá. Faltava apenas a diretora geral. Na sala, eu, com meu bloco de anotações e eles, com seus computadores pessoais. Ambos sentados de modo descontraído. Seus rostos não tinham tensão, pelo contrário, pareciam – como de hábito – positivos e confiantes.
Assim que cheguei, eles me cumprimentaram simpaticamente; dez segundos depois me pediram um favor: falar com a copeira, queriam café. Fiz isso sem problemas, até achei bacana a oportunidade de falar com ela, era seu aniversário. Além do mais, eu era o único sem um laptop, o único que parecia não estar trabalhando.
Depois de mais uns minutos, voltaram a brincar comigo, um deles disse que eu tinha sorte por não ter que fazer relatórios como aqueles que eles montavam, naquele momento. Apenas sorri e não respondi nada. Afinal, pensei, trabalho 10, 12 horas por dia, sonhando com a possibilidade de, no futuro, ter que fazer relatórios como os deles, ter horários flexíveis como os deles, ter a confiança e a tranqüilidade que eles têm, ter o contracheque que eles têm.
O pior é que eu não contava em ter que ir nessa reunião. Ainda mais ter que ficar esperando a diretora geral. Sentia-me acanhado, envergonhado por estar mal barbeado e mal vestido. Nada estava indo como eu planejei. Ao menos o ar condicionado estava ligado. Nesse calor seria ainda mais ridículo mostrar como eu transpiro nessas horas.
De repente, um deles levantou e disse "acabei". Em seguida, fechou o notebook, caminhou cinco ou seis metros pela sala e voltou. Era uma figura simpática. Simpático como alguém que quer mostrar que sabe sempre o que faz (o que eu duvido totalmente), o tempo todo ele parecia esbarrar na soberba, sem derrubá-la. Obviamente, ele não tinha muito assunto comigo, mal tínhamos nos visto na empresa, talvez duas ou três vezes, no máximo. Ele parecia até um pouco agitado, impaciente, logo resolveu mexer no projetor que usaria em sua apresentação.
Neste momento fiquei bastante desconfortável, me sentia pressionado a ajudá-lo, mesmo sem entender nada daquela tecnologia, quis me colocar à disposição. Sorte minha que ele parou quando chegou a copeira com um lanche. Ali tive que ter muito autocontrole. Era muito fácil comer sem demonstrar um pingo de educação. Já eram 19h30, eu não tinha almoçado e quando estou nervoso, como compulsivamente. Aquele lanche parecia ótimo e eles davam toda a pinta que mal olhariam para mim. Felizmente, consegui me segurar.

A diretora geral chegou quase trinta minutos depois. Fui o único a abrir um sorriso, o único a fazer menção de me levantar para cumprimentar, mesmo sem conhecê-la pessoalmente. Os outros permaneceram em seus lugares enquanto ela veio falar com cada um.
Logo em seguida ela iniciou a reunião. Foi interessante notar que quando ela começou a falar, eles, que até então não tinham feito a menor menção a tocar na comida, resolveram se servir. Nossa, como deve ser bom ter essa segurança, tomar café e parar de olhar para a sua diretora no momento que ela começa a falar.
Após as primeiras instruções e informes eu tinha anotado todas as minhas tarefas; eles tinham feito telefonemas e enviado torpedos. Com a apresentação que veio na seqüência, notei que todas as decisões giravam em torno das minhas idéias, dos projetos que apresentei, das oportunidades que criei para a empresa. Não pude disfarçar o meu orgulho nesse instante. Percebi que a minha presença naquela reunião tinha um motivo e comecei a sonhar com a promoção que julgava merecer a três anos.
No fim da noite o resultado pode ser óbvio para aqueles acostumados a ler os textos desse blog. A promoção não veio. Saí de lá apenas com mais trabalhos, um enorme número de operações para fazer (que gerariam os tais relatórios que tanto os preocupam...) e a certeza de que para eles eu era apenas um peão. Mas também saí com o aprendizado que me era necessário, como não me comportar. Se eu queria ser um deles, teria que mudar algumas coisas em meu comportamento, mas jamais seria negligente como eles. Pedi demissão na semana seguinte e agora sou executivo em outra empresa. Confesso que não fico triste ao saber que pouco tempo depois o meu departamento foi extinto e a empresa caminha para fechar suas portas. É, para aqueles acostumados com sad ends, uma novidade.
Escrito por edusenise às 12h51
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