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Desamores
 


Luto

Estou enjoado, não consigo comer nada. Sinto uma enorme dor de cabeça, fraqueza, algo parece estar prezo na minha garganta. Meu humor está pra lá de instável. Meus olhos estão fundos, com uma dor latejante. Sinto a minha pele esponjosa, mas a musculatura está travada, mal consigo me mexer. Passo as mãos pelos meus cabelos não cortados e sinto a oleosidade. Estou suando, mas as minhas mãos estão geladas.

Vou para o banheiro, cuspo na pia, gosto amargo. Abaixo a cabeça, tonto, muito tonto, olho para a privada. Apoio a mão no box e me sento em frente a ela. Tenho ânsia de vômito. O estômago embrulhado anuncia que eu preciso me livrar de algo ruim. Dou a primeira golfada, depois dela sinto-me um pouco melhor. Tento levantar, escovar os dentes ir para a cama. Mas em minutos o enjôo volta. Saio correndo para o banheiro. Agora o jato é forte, doloroso, tira de mim o que tinha me forçado a comer no café da manhã.

O banheiro está imundo, eu me sinto imundo. Tento lavá-lo com minhas poucas forças e entro no banho. Pelo meu cansaço, dormiria sob a água, pensando em me acomodar melhor, me lavo rapidamente e vou para a cama. Agora sinto frio, me visto e pego dois edredons. Deito de barriga para cima e me enrolo como uma múmia. Penso em telefonar para alguém. Mas quem? Acho que tenho que passar por isso sozinho. Ligo a TV, forço-me a ler as legendas sem os óculos, cansando a minha vista espero conseguir dormir. Apago por duas horas.

Desperto com fome. Nada na geladeira. Na dispensa, o último pacote de miojo. Tsc, logo o de frango, detesto o de frango. Como aquela porcaria como um animal, engulo tudo em menos de um minuto. Volto para a cama acreditando estar melhor. Durmo por mais duas ou três horas. Acordo agitado. A cabeça não dói mais. Agora, os pensamentos que me deixam tonto, apertam o meu peito. Sinto sufocar. A madrugada avança enquanto eu me remexo na cama, embolado entre travesseiros e edredons.

E assim fico por dias, talvez uma semana. Sem ver a luz do sol. Sem escovar os dentes. Sem esperança. Foi assim que finalmente descobri que a minha obsessão pela organização era o que ocultava o meu desleixo. Sempre usei cada palavra ao seu tempo não por estilo, mas por incapacidade de fazer links. Sou indisciplinado. Se pareço generoso é para ocultar minha mesquinhez, me faço de prudente; mas sou desconfiado; faço-me de conciliador para não sucumbir as minhas próprias iras.



Escrito por edusenise às 14h06
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