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Desamores
 


A perseguida da Florinda

Mudar de cidade o tempo todo tem as suas vantagens. Acho que a maior delas é poder tirar férias da minha vida, dos meus conceitos, costumes e hábitos quando quero. Afinal, sempre vou para lugares onde ninguém me conhece. Nesses novos sítios posso ser qualquer uma. É como tirar férias de mim mesma. Posso me apresentar como uma personagem diferente em cada lugar. Posso querer que me aceitem como fumante, gay, tímida, filha única, adotada, gostar de esportes, não gostar de gatos...

Acostumei-me a viver assim, sem uma identidade fixa, como uma refugiada. E quando a aflição - é, acho que esta palavra descreve melhor o que sinto - aperta, saio de onde estou. Por vezes, vou até um ponto de ônibus e faço sinal para o primeiro que passar (o destino é um mero detalhe mesmo), ando pela cidade sem saber como voltar. Quando isso não é suficiente, mudo de cidade novamente.

Até admito que haja dias em que estou mais sensível, normalmente eles acontecem quando já estou prestes a mudar de lugar. Afinal, por mais que eu tente, é difícil estabelecer uma relação onde não se cria qualquer vínculo com a cidade onde se mora. E mais do que isso, que não te leva à comparação com a cidade de onde você veio. Agora, por exemplo, creio que seja um desses momentos. Afinal, vim para cá pensando em passar dois anos que já estão para se findar.

E pela primeira vez em minha vida, tenho vontade de voltar para uma cidade. Um lugar onde morei por tanto tempo quanto em qualquer outro, mas que sempre me acompanhou em pensamento. O mais fantástico é que quero voltar para lá sem que guarde qualquer lembrança em especial deste local. Sua infra-estrutura, clima ou tipo de vida nada têm de especial. Para dizer a verdade, a cidade é até interiorana demais para o meu gosto. Mas foi lá onde vivi a minha história mais fantástica. Com uma pessoa em que passei os melhores momentos dos meus últimos anos. Onde me senti mais indefesa quanto às imprevisibilidades da vida.

Tudo começou quando me dei conta que tinha perdido o meu guia de bolso – provavelmente o esqueci no motel de beira de estrada onde passei a noite – quando estava indo para a tal cidade. Parei em um pequeno comércio num vilarejo próximo da estrada, fui até uma padaria, pedi um café apenas como pretexto para solicitar uma informação a respeito de que caminho pegar. Para minha frustração, o balconista não era capaz de me dar uma mínima indicação, era um adolescente que jamais tinha saído de lá. Sorte que justo quando ele se justificava e pedia desculpas por não poder me ajudar, surgiu atrás de mim um homem que certamente não pertencia àquele lugar. Disse que havia me escutado e que podia me indicar o caminho.

Em uma conversa muito rápida fiquei absolutamente impressionada com ele. Seu tipo não era de uma beleza padronizada. Tinha um rosto e um corpo harmônicos, quase que polidos, sem exageros. Um homem que não atrairia as atenções das mulheres quando entrasse no recinto, mas que mereceria olhares ao longo da noite, por seu porte, sua energia, seu jeito, sei lá por que. Ele me disse ter nascido na cidade que eu procurava e que estava indo para outra direção, viajando a negócios, indo para a capital. De toda forma, foi muito gentil e me indicou que caminho seguir com uma riqueza de detalhes que deixaria até mesmo uma cega convicta de que poderia achar o lugar.

Saímos juntos da padaria, nos despedimos com um aperto de mão e entramos em nossos carros que – por acaso – estavam parados lado a lado. Saí à direita e ele a esquerda e seguimos nossos caminhos. Quilômetros depois, me peguei pensando nele, lamentando por não ter ficado com o seu telefone, pedido um cartão, sob o pretexto de ser uma nova moradora da cidade e que seria legal fazer amigos. Cheguei a dar um soco no volante do carro me lamentando por ter sido tão ingênua. Nessa hora, distraída pelas minhas lamúrias, mal notei quando um carro passou por mim naquela estrada tão deserta. No pouco tempo que tive, olhei para o lado e me achei louca. Acreditei que era o meu sonhado “amigo” ao volante. Mas o carro era outro, a direção que ele tomara era outra e a roupa era diferente. Nessa hora achei até graça dessa pequena alucinação.

Só que mais à frente essa graça se transformou em uma grande interrogação. Eu andava bem rápido por uma grande reta quando notei o carro que me ultrapassara parado no acostamento e o seu motorista fora dele. Novamente o vi de relance, parecia impossível, mas era o homem que eu havia conhecido! Agora não tinha mais dúvidas. Certamente ele havia trocado de carro e de roupa e estava me perseguindo. Confesso a vocês que num primeiro momento não gostei nada desta sensação de ter alguém em meu encalço, mas no segundo seguinte, fiquei vaidosa com a tentativa dele.

Assim, mesmo sabendo que faltava pouco para chegar até a cidade, diminui o ritmo propositadamente. Queria dar tempo para ele me alcançar. A noite já tinha chegado e quando eu passava por um trigal notei os faróis de um carro atrás de mim. Era ele. Fui para a pista da direita, emparelhei meu carro com o dele e abri a janela. Sorri e acenei. Ele, de um jeito sínico que me deixou ainda mais interessada, sorriu com ar de surpresa. E sem que falássemos uma palavra, ele fez sinal para uma pequena entrada na plantação de trigo por onde eu o acompanhei.

Descer do carro e ver aquele homem praticamente desconhecido, sob a luz da noite, naquele lugar, me esperando, foi uma das coisas mais excitantes que já vivi. Andei em sua direção, parei a sua frente e disse “oi”. Em resposta ele me agarrou para um dos melhores beijos da minha vida. Nas horas seguintes, com ele, num lugar em que jamais imaginaria, tive uma noite fantástica. Saímos de lá pouco antes de o sol nascer, evitando que fossemos vistos. Seguimos para a cidade e ele me mostrou onde morava antes de me indicar uma pensão.

Dias depois, quando já estava instalada, fui até onde ele morava. Quis fazer uma visita surpresa. Ele foi logo abrindo a porta e me pediu para esperar um instante na sala, pois estava falando ao telefone com o seu irmão gêmeo, que tinha ido passar um tempo na capital.



Escrito por edusenise às 09h47
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