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Desamores
 


Minha mãe candidata

Minha mãe é candidata a cargos públicos desde que eu tinha dois anos. Cresci vendo-a cumprimentar desconhecidos como se fossem seus amigos, beijar crianças com tanto amor que pareciam meus irmãos e falar a respeito de assuntos que ela não conhecia com a mesma eloqüência de quando me dava sermões por minhas notas baixas em Matemática.

Sempre admirei sua força, mas seus compromissos nos afastavam, quase nunca tínhamos tempo de viver uma relação normal, como eu via em outras casas. Toda semana havia uma viagem para Brasília, uma reunião do partido, uma assembléia do comitê.

Com o tempo, me acostumei a receber notícias dela pelos jornais. E também a perceber que nem tudo que falavam a respeito dela era verdade. Conforme ela ia prosperando como política, ia naufragando como mãe. Jamais foi as reuniões de pais na escola, não estava disponível quando eu queria conversar sobre o meu primeiro namorado e nem quando eu engravidei.

Certamente foi nessa época que eu mais precisei dela. Infelizmente isso aconteceu em ano de eleição. Além de todos os compromissos tradicionais, ela também tinha os comícios, carreatas e debates. Era impossível conversar com ela sobre algo que não incluísse as palavras votos, pesquisas e algum palavrão.

E nem quero parecer reclamona demais, até acredito que ela tentava me dar alguma atenção, participar, ou ao menos se inteirar, da minha vida.  Mas aquela rotina a sugava, absorvia todos os seus pensamentos. Para ela foi impossível dividir o seu tempo comigo no início de minha gravidez. Ainda era um namoro razoavelmente recente, mas eu gostava dele, todos sabiam disso, inclusive ele.

O que ninguém sabia – a não ser eu – era que o filho era de outro. Oriundo de um relacionamento que eu mantinha escondida, com um antigo empregado da casa. Esta era a típica notícia que poderia arranhar a imagem de minha mãe em plena campanha. Assim, se eu não a divulgaria normalmente, com esse estímulo então, tinha certeza que manteria meu segredo.

Lidei bem com a minha mentira na maior parte do tempo. Tinha apenas pequenas crises de consciência quando me lembrava de uma frase feita que o meu pai gostava de repetir “não controlamos as nossas emoções, mas controlamos as nossas ações”. Bem, eu tinha sido egoísta e não me arrependia muito.

Com o tempo, a gravidez prosseguiu e a campanha terminou. Minha mãe não foi eleita. Perdeu em segundo turno, por uma diferença mínima. Quando o bebê estava para nascer procurei por ela que, finalmente, podia me dar mais atenção. Já não estava suportando mais manter o meu segredo sem dividi-lo com alguém e eu só confiava nela para esta tarefa.

Contei tudo que aconteceu. Que o meu namorado e futuro marido não era o pai da criança, como eu o enganava há meses e agora me envergonhava pelo que tinha feito. Em um determinado momento, cheguei a comentar que não sabia se agüentaria a pressão de não contar a verdade para ele.

Foi quando ela, placidamente, me abraçou, afagou minha cabeça e com uma voz suave e cheia de ternura me disse: “Um amor baseado em mentiras não é um bom amor, só por que não é fundamentado em um sentimento verdadeiro? Querida, você ia ficar impressionada com a quantidade de mentiras que uma pessoa pode suportar”.



Escrito por edusenise às 22h33
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