A melhor maneira de lidar com uma tentação é ceder?
Eu penso que sim.
Mesmo sabendo que essa postura que me apazigua o corpo, me atormenta a alma.
Hoje eu diria que posso resistir a tudo, menos à tentação.
O barulho do elevador
Moro num prédio muito antigo. É um daqueles edifícios sem playground ou garagem. Aqui há três blocos de dez andares. Meu apartamento é de fundos, na metade do caminho entre o térreo e a cobertura. Um quarto e sala, mais do que suficiente para alguém sozinho e de poucas posses como eu.
Vivo nesse lugar há dois anos, mas não conheço muita gente. Os vizinhos não costumam dar as saudações de praxe, parecem sempre mal humorados. Em sua maioria são tão idosos quanto o elevador do prédio; um ascensor pequeno, com capacidade para cinco pessoas. Ele tem um espelho na altura do rosto de uma mulher e uma estrondosa porta pantográfica.
Durante as madrugadas o som dele parando no quinto andar me é perfeitamente audível, basta que eu esteja na cama, acordado. Há sete meses esse barulho é a maior tortura da minha vida. Não existe uma onomatopéia perfeita o suficiente para transformar o ruído dessa máquina em palavras. De toda forma, posso tentar descrever a minha sensação ao escutá-lo.
Pelo que percebo, a frenagem deve começar quando ele ainda está passando pelo terceiro piso. Isso provoca um ruído contínuo que dura três ou quatro segundos, o suficiente para me deixar em alerta. Depois um estanque e um estalo forte, acho que é quando as correntes param de alçá-lo e ele interrompe a sua trajetória. Nesse momento odeio a mim mesmo por ainda sentir aquela quentura na boca do estômago, típica de um tormento mal resolvido. O suplício chega ao ápice quando escuto o pior dos barulhos, a abertura da porta. Ele é feita de oito barras articuladas e enferrujadas, presa em rodinhas de rolimã que correm sobre um trilho de aço mal conservado. Ouvir o seu chiado é o suficiente para me fazer passar o resto da noite em claro.

Sempre que isso acontece, irracionalmente anseio por escutar os passos de tamanco pelo corredor e ver, por baixo da porta, a luz acendendo. É provável que seja uma esperança vã, mas ainda não foi desfeita. Na realidade, meu corpo queria ter mais uma chance de estar com ela. Daria tudo para que a minha campainha soasse numa madrugada de quarta-feira mais uma vez. Não consigo desatar-me das lembranças.
Eram 3h30 da manhã quando ela me ligou. Disse que precisava me falar com urgência, perguntou se podia vir até a minha casa. Estranhei aquilo tudo, mas não titubeei, “pode, claro”. Ela chegaria em vinte minutos, só tive tempo de me vestir e escovar os dentes. Meu coração não cabia em meu peito, a expectativa e a dúvida me consumiam, não imaginava o que poderia ter acontecido, nada justificava a sua vinda. Na época, quando escutei o barulho do elevador, levantei num salto e esperei atrás da porta.
Ela estava maravilhosa, brilho nos lábios, saia branca, blusa decotada com as costas nuas e uma tiara. Fiquei absolutamente nervoso e sem jeito ao vê-la, não sabia muito bem o que falar, ela sempre foi muito melhor nisso do que eu. Perguntei o que tinha acontecido, qual era o motivo de uma visita no meio da madrugada.
- Vim aqui só para te dar um beijo.
Essa frase reiniciou tudo. Intimamente eu ansiava por aquele momento, mas nunca confessaria isso a ela. Nos beijamos longamente até que ela parou e explicou o motivo de seu sumiço, emendando com a explicação de que aquela era a despedida de nosso relacionamento (que nunca chegamos a oficializar). Pediu desculpas e se disse envergonhada. Choramos, nos abraçamos e confessamos que no passado gostávamos um do outro, só ficávamos um com o outro e chegamos a conclusão de que tudo parecia acabar sem chegar ao clímax. Então transamos e choramos novamente.
Julgamos que seria mesmo impossível nos mantermos assim. Era imprescindível que nos libertássemos de nós mesmos. Prometemos que iríamos nos afastar, pois em nossa história não é possível qualquer tipo de final feliz.
Refletindo sobre isso ela chorou, dessa vez sozinha. Mostrou-se envergonhada por ter me feito sofrer. Eu a abracei e tentei trazer algum conforto enquanto pensava em como a acho irresistível, em como seria difícil lidar com a tentação de não mais me aproximar dela. Afirmei que apesar da minha mágoa poderíamos conviver pacificamente e nos tratarmos com carinho e cordialidade. Mas seria apenas isso, ao menos eu estava tentando me convencer. A única conclusão a que chegamos era que jamais poderíamos voltar a ser amantes. Assim, transamos novamente. O fizemos em clima de despedida. Naquela hora, nada poderia ter sido mais prazeroso.
Depois disso não houve mais choro. Ficamos lado a lado por alguns minutos, falamos sobre coisas desimportantes e esperamos alguns minutos pelo raiar da manhã.
Poderíamos ter passado todo o dia na cama, revivendo as despedidas e alimentando minha autoflagelação. No entanto, quem sabe por sorte ou por azar, ela precisava trabalhar. Quando ela saiu, abateu-me uma sensação de vazio quase desértico, um pesar amargo e o inquietante pensamento sobre como faltou pouco para que tudo tivesse dado certo. É muito doloroso pensar que preciso fugir dela. Ao mesmo tempo, estou certo de que é necessário que nos afastemos.
Para o bem do meu coração, espero que ela mantenha a promessa e mantenha-se longe. Enquanto isso, vou revendo os meus conceitos sobre as tentações e padecendo com o barulho do elevador.