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Desamores
 


O atleta

Eu era o pior do time, mas era também o mais esforçado. Primeiro a chegar aos treinos, último a sair. Não bebia, não fumava e comia de maneira regrada e saudável. Jogava para a equipe e tentava me mostrar importante para o grupo sempre que tinha a chance de treinar com os reservas; já que entre os titulares eu nunca consegui.

Eu era um dos mais baixos e mais franzinos. Mas não era o pior por causa disso. Simplesmente tinha menos talento que os outros. A força de vontade e dedicação compensavam um pouco da minha falta de habilidade, mas não o suficiente.

Eu era o mais atuante dos atletas, me envolvia nas questões políticas do clube, ajudava na preparação da equipe, ajudava nas preleções e passava informações a respeito de treinamentos e de adversários para a comissão técnica. Se eu jogasse, poucos minutos que fossem, certamente seria um dos capitães do time.

Eu era querido pelos colegas da equipe e pelos funcionários mais próximos ao time. Jamais tive fã clube, ou recebi cartas de fãs. Mas eu nunca esmoreci. Continuei me empenhando, tentando mostrar serviço e me dedicando.

Eu era um atleta quase sem esperanças quando finalmente tive a minha chance. Joguei dois minutos, na realidade, um minuto e cinqüenta e nove segundos. No último jogo da temporada, uma partida perdida em que o técnico resolveu retirar os titulares. Nesse tempo, consegui pegar na bola três vezes. Foram dois passes errados e uma falta de ataque.

Eu era o homem que faria daquela partida, daqueles poucos lances, o meu primeiro e último jogo. Encerrei minha carreira naquela noite, exausto, sobretudo emocionalmente, e mesmo com a minha atuação pífia e a derrota, saí sob os aplausos dos poucos torcedores que ainda estavam lá. Eles reconheciam o meu esforço.

Naquele momento, ao encerrar minha carreira, eu era o atleta mais feliz do mundo.



Escrito por edusenise às 22h19
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