Bem resolvida Ela era do tipo que sai contigo sem querer fazer de você o homem da vida dela, sem querer apresentar pra mãe e sem querer te dar o primeiro abraço no ano novo. Para alguém como eu, que quase sempre interessado apenas em sexo casual, aquela postura era perfeita. Segura, parecia decidir tudo o tempo todo; até mesmo com quem ia compartilhar a cama. Já eu sempre me achei um engodo. Preguiçoso e manipulador, minha melhor característica era ser observador. Sabia exatamente o que ela gostava e tentava atrair a atenção dela com isso. Cansei de vê-la intimidando homens por ser assim, confiante e bem sucedida. Outros, mais corajosos, se impressionavam e acabavam se interessando por ela. Tinham seus momentos e só. Nunca passava disso. Era incrível notar a sua disciplina. Bancava a durona 100% do tempo, nunca aparentava carência. O que, claro, eu sabia ser só uma fachada. Quando começamos a sair com mais freqüência isso ficou evidente. Nas primeiras cinco, seis vezes que nos encontramos, nada acontecia. Ficava apenas aquele clima de constrangimento no ar. Um clima que eu acreditava gerar por tentar me fazer de perfeita companhia o tempo todo. Por vezes, o silêncio acanhado nos oprimia, mas eu tentava ser forte e o deixava perdurar até que ela cedia. Nessas horas, ela falava quase compulsivamente até que todo o clima desaparecesse. O que eu mais admirava nela era a maneira como caminhava. Nada de queixinho empinado e quadris rebolantes, nada de poses e bancas. Ela apenas caminhava, andava como quem marcha, não de modo masculinizado; segura, firme como alguém que nunca se emociona, como quem nunca vai se debulhar em lágrimas para tentar te comover. Ela vendia uma imagem de que sabia lidar com as diferenças, de que era capaz de se manter íntegra e fiel a si mesma, sem jamais se desfigurar para agradar o outro.

Eu fingia que acreditava em tudo isso. Por vezes até me fazia de surpreso e corroborava com a personagem dela. Mesmo me sentindo um canastrão, me esforçava para agradá-la. Não porque fosse um romântico apaixonado, era apenas um inseguro doentio que queria manter aquela relação o máximo possível. Até porque aquela era uma forma brilhante de valorizar o meu passe. Para ela, ser bem resolvida não era sair com todo mundo pra se fazer de moderninha. Afinal, para ser bem resolvida é preciso ser capaz de se entregar. Quem sabe até mesmo ter coragem de enfrentar os desafios que uma vida a dois impõem e de cultivar uma caprichosa intimidade. E era justamente isso que fazia ela ir cedendo ao convívio e demonstrando suas fraquezas, se permitindo dividir angústias e até mesmo a chorar no meu colo. Aquele era um sentimento incrível, que se sedimentava com o tempo. Mulheres bem resolvidas tratam das suas intimidades sabendo que ela não brota do acaso. Ela é construída, tijolinho por tijolinho. Mas é claro que ser bem resolvida não é como ser destra, flamenguista, ou como gostar de praia. É uma situação em processo. Todo mundo cai de vez em quando, até mesmo ela. A diferença é que ela não ficava sentada, se recompunha rapidamente e voltava a caminhar, com ainda mais elegância. E foi isso que ela fez quando soube que eu estava saindo com outra menina.
Escrito por edusenise às 09h01
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