Mais importante que a agressividade Até eu subir no ringue foram quatro meses de treino. Se eu pensar que demorei quase metade desse tempo só pra aprender a pular corda, acho que até foi rápido. Desde o início eu só treinava o físico e a parte técnica, socando os sacos. E se você acha que isso é lutar, pense no seguinte: dar milhares de chutes numa bola te faz jogar bem futebol? Pois é. Meses fazendo jab-direto; jab-direto, sai, direto; jab-direto, cruza, cruza; jab-direto, cruza, direto; jab-direto, cruza, cruza, direto; jab-direto, esquiva, direto; jab-direto, esquiva, esquiva, jab-direto; jab-direto, esquiva, esquiva, pêndulo, direto... Nas primeiras vezes que pisei no tablado eu não sabia nem andar como um pugilista. Trocava as pernas de um jeito que nem precisaria de um soco do adversário pra me derrubar. Aos poucos, fui aprendendo; ainda não sou nenhum dançarino, mas também não fico dando mole. A gente começa fazendo espelho. Nem se toca, só vai mostrando pro outro a sua postura, a maneira como se movimenta, os golpes que conhece e, mais que isso, a sua agressividade. Depois fui liberado pra fazer luvas. Como diz o técnico “só toque, sem machucar”. Tsc, imagina se uns moleques de 19 a 22 anos vão entrar nessa. Eles querem bater, tão lá pra lutar. Se tu vai tocar neles sem força é problema seu, eles querem ver se sabem derrubar alguém. E no começo eu apanhei bastante. Até ficar esperto com a esquiva e a minha guarda. O melhor dessa fase foi ver que muitas vezes os garotos eram melhores do que eu, mas se encolhiam, queriam bater mas tinham muito medo de apanhar, faltava a tal agressividade. Com esses que eu comecei a repetir pra mim mesmo, mentalmente, uma frase que a gente escuta o tempo todo no boxe “Você primeiro”. Não ia deixar esses caras me socarem antes. A iniciativa tinha que ser minha. E quando eu assumia isso, era raro apanhar.
 Aos poucos fui ficando bom. Já sou um cara procurado pra treinar junto. É, tem essa, no boxe você evolui quando treina com gente boa, ficar ensinando quem não sabe nada é coisa pro professor e ficar batendo em galinha morta não te traz nenhum benefício. Até sei que esse pensamento é arrogante. Agora pense se calçar luvas e querer bater na cara de outro é esporte pra gentleman? Fala sério com essa coisa de “nobre arte”. E hoje descobri algo pior que a falta de agressividade no treino. Justamente quando eu achava que eu já era bom o suficiente. Fazendo luvas com um moleque mais novo e mais leve, muito técnico, eu entrava sempre primeiro. Nada dele colar em mim. Assim ele apanhou até encostar nas cordas. Nessa hora eu o castiguei com gosto. É um dos mais marrentos da academia, bati com vontade. O moleque foi se encolhendo e quando parecia que ia pedir arrego soltou um direto. Do nada, desesperado. Acertou em cheio na minha boca. Senti ela ficar dormente na hora. Dei um passo pra trás e pra sorte de ambos o round acabou. Eu fiquei com a boca do Mick Jagger por uma noite, ele nunca mais apareceu pra treinar. Mas agora entendi que mais perigoso que a falta de agressividade é não guardar rápido a sua direita. Quando entra um contragolpe você pode ver o teto do ginásio num segundo.
Escrito por edusenise às 21h53
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